
Eu não acredito que não haja um militante social-democrata que, na manhã de todas as segundas-feiras, não faça o seguinte exercício de suposições: se Bruno Pereira não tivesse apostado no cavalo errado – o mesmo de há 36 anos – e mandado passear o apoio manifestado por Miguel Albuquerque à sua candidatura, teria o partido perdido o Funchal para a coligação? E se Bruno Pereira não tivesse servido de peão do tabuleiro de xadrez com que a Quinta Vigia fez xeque-mate ao inédito concorrente nas eleições internas do PSD, Alberto João Jardim alguma vez teria vencido a liderança do partido?
Os resultados eleitorais - os que elegem presidentes, não os que escolhem candidatos - dissipam as dúvidas, se as houver. Os madeirenses relegaram o PSD para onde ele sempre esteve - no Faroeste - em todos os sentidos: na geografia do poder autárquico da Região e na geometria do assalto ao poder do partido. Onde está a social democracia? No já chamado de “Afaquistão”, o resquício do ‘far west’ onde o poder é cultivado distante da realidade, onde a ansia de conservação das hierarquias dominantes não é determinada pelas pessoas, nos plenários e nas assembleias, mas imposta por 'cowboys' em jogos de sombras, com passos mal contados de pistola ao coldre, ajuizados por xerifes batoteiros dispostos a corromper por um quinhão de terra ou de outra coisa reluzente qualquer?
Mas mudou também a geometria do assalto ao poder no partido de um homem só. Passou-se de uma pirâmide tipo faraónica para um modelo cilíndrico com espaço para cilindrar, entre tiros furtivos e fogo cruzado, os incontestáveis e bem instalados burgueses. Quem afinou direitos e deveres à lei da bala, à conta das suas medidas e à medida das suas contas, terá de provar do próprio veneno. No Faroeste, passam logo à história todas aquelas alergias à sucessão e a submissão à vontade do único homem que se sente legitimado para ocupar uma cadeira que balouça, entre o sair e o reentrar. Entre o “ora espera aí que eu já me levanto” até ao “deixa-me estar sentado que isso sem mim não anda”. É um angustiante entardecer em laranja púrpura para aqueles que, timidamente, vão aparecendo a querer salvar a honra do convento.