Na verdade perderam quase todos os partidos políticos pois o número da abstenção e de votos brancos aumentou consideravelmente e o número de votos absolutos diminuiu para todos os partidos com exceção do PCP. Ou seja os eleitores estão cada vez mais alheados da vida política e dos partidos políticos. No entanto outros dados devem ser destacados: o partido comunista reconquistou parte daquilo que tem perdido nos últimos anos e voltou a ser um partido com algum poder autárquico. Já os candidatos socialistas foram os mais votados e os do PSD – em especial alguns «barões» - foram severamente derrotados. O Bloco desapareceu. Uma lição – para quem ainda tinha dúvidas – a política em Portugal já não é o que era. E mudou muito. Felizmente para melhor. Alguns «sempre-em-pé», existentes em todos os partidos afinal foram ao tapete e perceberam que são vencíveis como qualquer mortal. Uma grande lição que só a democracia sabe dar. Outro dado destas eleições: a vitória das chamadas listas independentes. Na verdade, na minha opinião, têm muito pouco de independentes. São mais listas contra as decisões oficiais dos partidos do que genuinamente independentes. Apesar disso tiveram o mérito de tirar o exclusivo às direções partidárias. Estas eleições merecem, ainda, outras análises. A primeira é perceber que são eleições autárquicas e que não se devem fazer leituras nacionais. O que é bom. É sinal que quando se vota para a Câmara estamos a votar nos candidatos à autarquia e não no partido do governo ou da oposição. É por isso lamentável verificar que o PS quis fazer uma extrapolação nacional ao somatório das autárquicas. Desta forma os socialistas menorizam as qualidades dos seus próprios candidatos autárquicos, o que é lamentável. Com isto não quero dizer que não exista uma forte contestação ao governo. Existe e é fácil de verificar e de perceber. Já António José Seguro passou o teste destas eleições e deverá ser o candidato a primeiro-ministro do PS nas próximas eleições legislativas. A seu favor tem o facto de António Costa ser o candidato a Belém e não a São Bento. É exatamente isso que ele quer e quando parece o contrário é apenas bluff . Já o primeiro-ministro saiu derrotado no papel de líder do PSD pois muitos dos candidatos do seu partido perderam humilhantemente as eleições. Paulo Portas também perdeu mas curiosamente ganhou o show da noite eleitoral. O casal que lidera o Bloco foi estrondosamente derrotado. Já a genuinidade do líder comunista surtiu efeito. Outros dois factos merecem ainda destaque: a vitória de Rui Moreira – uma candidatura muito pouco independente - na Câmara do Porto e a derrota do PSD-Madeira. No primeiro caso além de Rui Moreira a vitória também vai para Rui Rio que, naturalmente, ganhou fôlego para a sua futura candidatura à liderança do PSD. No segundo caso a derrota só será corrigida se o PSD-Madeira encontrar um líder que una o partido e reconquiste a Madeira. Se não conseguir irá passar muitos anos na oposição como acontece nos Açores. Num próximo artigo irei debruçar-me sobre esta questão. O FIM DA TROIKA Muito se tem falado no fim da troika. Existem mesmo discursos muito pouco responsáveis que dizem que “quando reconquistarmos a independência, com o fim da Troika, Portugal volta a ser governado pelos próprios portugueses e as políticas de austeridade vão acabar”. Dois sustos: o primeiro pensar que podem regressar aqueles, que apesar de portugueses, nos levaram à desgraça. O segundo susto é pensar que o contrário de “políticas de austeridade”, para alguns dos nossos políticos, representa o regresso ao regabofe do passado recente. Na verdade o balanço das políticas da troika não é muito famoso mas os últimos tempos serviram para se perceber o que de essencial há a fazer em Portugal: tornar o País mais competitivo, cortar nas despesas do Estado, diminuir drasticamente a carga fiscal e reformar a Constituição. Mais cedo ou mais tarde é exatamente isto que vai acontecer. Ou a bem ou a mal. A bem se tivermos serenidade e coragem para isso. A mal... quando o dinheiro faltar. LIVRO Recomendo um livro muito interessante sobre a História de Portugal, desde os tempos que antecederam a fundação do País até 1910. Da autoria de João Paulo Oliveira e Costa e editado pela Temas e Debates, neste livro são descritos, de uma forma muito sintética mas interessante, muitos dos episódios que fizeram a História de Portugal. Para quem se interessa pelo tema é um livro imprescindível.

Paulo Neves