Hoje gostaria de destacar a dimensão existencial da fé cristã, temática que foi profundamente desenvolvida ao longo de todo o Ano da Fé, que agora se encaminha para o fim. É uma oportunidade para aprofundar e viver com maior coragem e lucidez a própria fé, enquanto encontro não com uma ideia, nem com um projeto de vida, mas com uma Pessoa viva que transforma em profundidade aquele que nele acredita. Trata-se de um encontro que renova os relacionamentos humanos, orientando-os para uma maior solidariedade e fraternidade, na lógica do amor.

Este encontro não é algo que interessa unicamente ao campo do saber intelectual, à nossa inteligência, mas implica uma mudança que compromete a vida e a totalidade do nosso ser. A experiência deste encontro muda verdadeiramente tudo, quer em nós quer na relação com os outros e com o mundo. Por isso, é urgente que sejamos capazes de fazer esta pergunta: esse encontro, ou seja, a fé é verdadeiramente a força transformadora da nossa vida?

É fundamental percorrermos um caminho que leva ao fortalecimento desse encontro, compreendendo que este não é algo de alheio, nem separado da vida concreta, mas acontece verdadeiramente nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas em que a humanidade está presente.

À luz do que acabo de referir é claro que a vivência da fé não pode deixar de se traduzir numa preocupação constante pela construção de um mundo cada vez mais humano. Mais ainda, tenho forte convicção de que os cristãos são chamados a dar um contributo específico e imprescindível para a humanização deste mundo: onde existe domínio, posse, exploração, mercantilização do outro por egoísmo próprio, onde há arrogância do eu, fechado em si mesmo, o homem torna-se pobre, degradado, desfigurado. É necessário, então, uma presença que se manifesta em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e serviço ao próximo, de caridade e de esperança que não limita mas humaniza a vida e a torna plenamente humana.

Deste modo, o viver cristão no mundo não pode, pois, fugir ao empenhamento nas circunstâncias históricas e envolve a necessidade de descobrir, nas mais diversas situações em que o cristão é chamado a viver, as suas possibilidades reais e a sua correspondente tarefa no que diz respeito à responsabilidade pública inerente à fé. A fé não pode ser pensada sem essa dimensão pública e cada cristão tem de encontrar o modo como se concretiza a responsabilidade social e política que decorre da sua vivência crente e isto como elemento integrante (não acidental ou eventual) da sua própria identidade.

No entanto, tomar isto verdadeiramente a sério exigirá que a comunidade cristã corrija algumas mentalidades e modos de proceder, e que a vida da própria comunidade (desde a catequese de crianças e de jovens às opções pastorais concretas) seja cada vez mais um espaço onde se desenvolva o sentido da responsabilidade pública da fé. Este facto pressupõe que se cresça (em termos de convicção e de capacidade de assumir atitudes coerentes) na consciência de que a responsabilidade pública da fé envolve toda a comunidade cristã e não diz respeito apenas ao indivíduo.

Igualmente, cabe à comunidade tomar consciência do significado da sua presença concreta no meio, evitando a ilusão de uma falsa neutralidade e realizando os gestos coletivos que são exigidos pelos valores da fé e pela dignidade da pessoa. Será obviamente um agir diferente (nos objetivos, nos critérios, no estilo, nos métodos) de uma qualquer força social ou política. Mas é uma presença indispensável como testemunho desse encontro, que expressa uma preocupação pelos problemas do meio em que se insere e mostra o que a fé significa para enfrentar esses mesmos problemas.

Marco Gomes