Debruça-se sobre a imagem. E a sua infância também . Foi espoliada da alegria desde a infância, e este roubo inicial semeou, mais ou menos em surdina, o pânico e a raiva na sua vida. Percorreu o mundo, de coração em tumulto, o olhar impaciente, insaciável. Viu quase todos os países, cidades às centenas, pessoas aos milhares. Contudo, terá pousado uma única vez nos lugares, nas coisas e nos seres um olhar tão perfeitamente atento como dúvida. O que viu afinal de contas? Retalhos do visível arrancados à pressa, fragmentos de beleza devorados sem vagar e sem inteligência. O que lhe resta de tudo isto ? Imagens caleidoscópias, sem laço entre si, nem construção de conjunto. Migalhas de imagens, não raro cortantes. Sentiu então que precisava de reaprender a olhar; aprender a ver. Não somente o céu, mas as árvores, os caminhos nos campos, as sombras a deslizar sobre os muros e as coisas, e por fim os rostos. Aprender a olhar o visível, a carne do visível, a pele do céu e a pele da terra, para descobrir a pouco e pouco que esta carne não é apenas lama, chama e sangue, que esta pele não é apenas transpiração de violência, tremor de ira e medo. Aprender também a escutar, a distinguir as inflexões das vozes, dos silêncios e dos sopros. Aprender a aflorar o mundo, a tocar-lhe com a ponta dos dedos a fim de sentir a sua doçura escondida. Aprender a paciência. Aprender em cada dia, e em cada dia mais. Aprender para desenlear devagar o caos dos sofrimentos emaranhados na memória e o dos terrores entretecidos no mais fundo das entranhas. Aprender para altear, fora do coração enlodado em velhas feridas de amores traídos, em assomos de ódio e de vingança insaciada: o sorriso da vida. Aprender para ir além de si mesma - deserto atravessado por amores nómadas, abrasado por mil vergonhas, angústias e dores, às vezes ofuscado por fugazes miragens que ainda mal dissipadas atiçam a sede e o ferimento, e silvam de cólera. Aprender o imenso e a quase loucura, para consentir em viver consigo mesma depondo as armas, para consentir em ser apenas si mesma - deserto aplanado pelo vento da graça. Há menos crianças do que outrora no burgo. Foi-se embora muita gente; a terra éingrata, a vida é lenta, muito lenta e monótona nesta região pantanosa. A maioria dos que persistem são velhos. Além dos pássaros. Aqui os pássaros prevalecem a olhos vistos sobre os homens. Nidificam nos canaviais, em jangadas de ervas e raminhos, em plantas flutuantes. As casas dos homens fecham-se uma a uma, os seus jardins em abandono. Os lobos que infestam as florestas levaram consigo as próprias sombras; as fadas, todos os duendes, bons e maus, dormem nas charnecas e entre os caniços. Já não é o corisco que escorraça as fadas dos corações demasiados sensíveis, os feixes ofuscantes das antenas gigantes é que as exilaram. Mas os velhos e as velhas que permanecem na região sabem muito bem que basta uma ninharia para despertar estes espíritos vagabundos - e sobretudo que nunca se deve chamá-los por dá cá aquela palha.
Isto, sabe-o agora; aprendeu que não se deve despertar brutalmente as recordações feiticeiras, negar-lhes a força alapada no fundo da memória, e que ao virar-nos com brusquidão, com ira, contra a sombra do passado grudada aos nossos passos, só logramos esbarrar com ela. Então, a sombra inteira-se, endurece mais, e torna-se ainda mais pesada e hostil. Compreendeu que convém deixar as vozes, os rostos, os gestos e os passos desaparecidos regressar na devida altura, afastar-se na hora propícia. É uma paz profunda que sobe da imagem e consola a criança mantida durante tanto tempo na sombra da mulher. É uma alegria leve, muito leve e transparente que repenica na imagem e liberta a mulher da rapariguinha que até então constitui a sua penumbra e a sua corrente. É uma paz tão terna a que se desfralda no seu coração…igual a um lírio dos pauis na estação da deiscência. Em boa verdade, esta imagem, este lampejo, estavam desde há muito em germe no seu coração, tinham amadurecido na sombra e no silêncio; a sua eclosão é a um tempo espanto e evidência. É a floração de um longo querer aprender.
Uma segunda infância acaba de nascer. Uma infância não nascida com olhos ardidos de lágrimas contidas, mas embaciados de doçura como ao sair de uma cisma. Uma infância com olhos já não desmedidos de ídolo terrificante, de orante alucinada, mas deslumbrados pelo amor mais desnudo. Nova infância que já a chama e que, longe de a puxar para trás e de lhe entravar a marcha, a convoca além da sua idade. Acolá, além, o mais maravilhoso de todos os aléns reluz suavemente no coração do aqui e do instante presente. Além, aqui, uma infância novamente nascida. Importa cuidar dela. Dar-lhe asilo com o olhar. No seu olhar cor de noite, sempre. Todavia, de ora avante, noite de Natividade.
« Levanta-te, toma o menino e sua mãe, E põe-te a caminho…» Mat.,II,20
Renata Camacho