As eleições do passado domingo ganharam uma dimensão que vai muito para além do imediato. Que ultrapassa em larga medida a distribuição de poderes, a soma dos votos, as vitórias e os fracassos. O resultado eleitoral destas autárquicas é a prova que faltava num normal quadro democrático. É a garantia de que os madeirenses perceberam que mudar é tão natural e legítimo como deixar tudo igual. E isso, numa terra amordaçada, faz toda a diferença.
Não estão aqui em causa as preferências de cada um, nem se os resultados foram bons ou maus. O que importa sublinhar é a disponilidade para mudar, para experimentar algo de que ouvimos falar noutras paragens mas não conhecemos por aqui. A alternância era para muitos madeirenses, com excepção dos eleitores de Machico e Porto Santo, algo que parecia assustador. E no entanto, de uma só vez, sete concelhos dizem claramente que querem tentar outro caminho. Até podem arrepender-se rapidamente mas ficaram a saber uma coisa: o voto serve para isso mesmo, para dar confiança, mas também para corrigir. Para dar poder e também para o retirar.
Farto de ser enrolado em conversa mole, o eleitor madeirense desceu do pedestal do povo superior e agiu de forma mais racional. Esse povo até foi ver Tony Carreira, até recebeu telhas e tintas e casas, até comeu e bebeu à saúde das setas, mas seguiu o seu próprio caminho com um entusiasmo que supera muitas expectativas. Confesso que mais do que este resultado, não esperava a reacção de gente anónima nos dias que se seguiram às eleições. Em alguns casos notei mesmo uma desconhecida atitude de libertação. Foi como se este resultado de 7-4 viesse com cheiro a Abril de 74.
Mais do que a mera distribuição de poderes, a soma dos votos, as vitórias e os fracassos, esta jornada eleitoral veio mostrar que, afinal, é possível mudar. Não apenas os protagonistas, mas também o próprio comportamento e a forma de exercer o poder dos que continuam. Avisados, dificilmente poderão actuar como se estivessem sós e com isso ganhamos todos.
Mas este resultado não é apenas um alerta para o partido do poder. É também um aviso à oposição que fica a saber que para ganhar tem de trabalhar com seriedade como quase todos fizeram desta vez. Ultrapassada a fase da conquista dos votos, outra bem maior se coloca aos vencedores: a necessidade de fazer melhor do que os vencidos.