“Uma criança, um professor, um livro, uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução.” Malala, 16 anos, Discurso nas Nações Unidas, Julho de 2013 Amargo será por certo o sabor da celebração do Dia Mundial do Professor amanhã, dia 5, para os milhares de docentes sem colocação graças à equação simplista do matemático ministro Crato, que os considerou excedentários para o número decrescente de crianças do país. Num espaço de quatro décadas, o país democratizou o ensino e alargou a escolaridade obrigatória, mas é ainda longa a distância que nos separa em termos de níveis de escolarização e literacia, dos países com quem gostamos de nos comparar. A procura de uma verdadeira cultura científica e literária ainda não é um lugar-comum na sociedade portuguesa, nem na tradição política em matéria de Educação. Temos a particularidade de chegar tarde e lentamente à leitura, à escola, ao livro, à Universidade. Há ainda muito trabalho educativo a fazer no sentido de sedimentar uma verdadeira cultura do conhecimento, o grande capital dos povos. Ainda não temos uma escola onde todos aprendam, presa que tem estado num rodopio de reformas, miragens e ilusões que nada mudaram no essencial. Alargou-se a escolaridade obrigatória para doze anos mas não se pensou na imensa diversidade social, nos muitos que não se reveem nos currículos impostos de cima para baixo.
Diz o ministro Crato que não precisa de tantos professores. Este ano cresceu exponencialmente o número dos que sem colocação, irão engrossar as filas do desemprego. Tudo se justifica com a necessidade conjuntural dos cortes na despesa do Estado. Que resultado terá esta política na qualidade educativa das nossas escolas nas aprendizagens e no sucesso educativo de tantos cidadãos? Isso não parece ser problema para este Ministro da Educação, para quem é aceitável haver alunos “naturalmente” talhados para o insucesso escolar. Sendo titular dos destinos educativos de um país que se diz democrático, não deixa de ser uma interessante perspectiva de igualdade e direito à Educação!
Há verdades que se impõem por cima da espuma do número de disciplinas do currículo e respectivos horários escolares, do tamanho das turmas, das contas públicas da Educação: cortar disciplinas, reduzir horas no currículo, aumentar o número de alunos por turma, despedir professores e sobrecarregar os que ficam, para além de manipular falsos horários zero e poupar uns míseros cobres em salários de professores, afectará naturalmente a qualidade das aprendizagens na Escola Pública. Não é inédito este cego cortar na escola: relembre-se Salazar e as suas políticas quanto à formação de professores e à redução da escolaridade obrigatória de quatro para três anos para as raparigas… Voltar-se-á ao básico aprender a ler, escrever e contar? Pode-se sempre reduzir o currículo, o número de escolas ou até voltar a esconder em casa, como antes, os portadores de deficiência e esquecer o imperativo caminho de modernidade democrática e desenvolvimento social da diversificação e flexibilização curricular, da integração e inclusão, em resposta às diferenças, conjugando o humano, o científico, o artístico, a cultura literária, numa escola holística onde todos têm o direito de aprender à sua medida.
Nunca como agora a escola portuguesa teve um leque de profissionais altamente qualificados para consolidar os percursos em Educação. Mas desperdiça-se a oportunidade de encetar um novo paradigma de ensino, com percursos curriculares construídos de baixo para cima, a partir de projectos e necessidades individuais e em nome da autonomia educativa. Os ritmos e etapas da aprendizagem são diferentes em cada indivíduo e a construção do conhecimento é sempre pessoal, condicionada pelos contextos de cada aluno, a sua estrutura psicológica e social, o grau de interesse que tem pelos assuntos, a motivação para aprender, a utilidade que vê para si próprio em termos de presente e de futuro. Seria desejável evoluir do estádio de massificação da escola, para uma maior diversificação curricular de modo a potenciar todo o capital enriquecedor das diferenças culturais e transformar a escola na arte do caminho possível para a utopia. Nem tudo é quantificável em Educação e há poupanças que custam caro em perda social irreversível.
Parafraseando Malala, a menina paquistanesa que por ser defensora do direito das mulheres à educação quase morreu num atentado terrorista quando ia a caminho da escola, nada substitui a Educação como fonte de dignificação do ser humano. Talvez a última esperança contra a barbárie, desde que se discuta seriamente os valores a ela subjacentes em cada política educativa. O exemplo de Malala obriga à reflexão sobre a importância de ler, informar-se, procurar a verdade refutando dogmas e tabus. E o uso da caneta – escrever - implica a livre expressão do pensamento, a denúncia de injustiças e atrocidades, o questionamento e a crítica de pretensas verdades irrefutáveis… E isso não agrada a todos. E quase todos sentem a tentação de o poder controlar. Uma escola inconformista, questionadora, um grãozinho de insatisfação talvez seja um caminho para a procura de soluções neste mundo carente de aprender a construir esperança. Com tanto para fazer temos professores a mais?
Júlia Caré