O resultado das autárquicas foi realmente extraordinário no sentido de que quase ninguém estaria à espera de tal mudança. Não acredito que alguém previsse tal descalabro laranja, até porque a máquina do poder, a tal que tinha 11-0, funcionava eficazmente em eleições. E não venha Jardim agora dizer que a democracia está pervertida só porque se compram votos com arroz e feijão, ela está pervertida porque alguém habituou este povo, por mais de trinta anos, a ser comprado com arroz e feijão. Alguns são comprados com viagens ao P. Santo, há anos em que são comprados duas vezes, nomeadamente quando há eleições. Mas todos fazem o mesmo e, enquanto quem está no poder tem telhas e cimento à disposição, os outros têm de ir ao supermercado. O que não valeu de muito nestas eleições, pois perder sete das onze câmaras foi obra. E foi obra de todo um partido, com o líder à cabeça, bem ajudados pela força de uma coligação e de muitos independentes que perderam o medo e afrontaram os poderes instalados. Não admira pois que o dr. Jardim desate a insinuar que os munícipes vão pagar pelas escolhas e que vão sofrer as consequências, parecendo que vai fechar a torneira que fechou quando, por exemplo, Machico estava do lado da rosa. É mesmo de quem está há demasiado tempo a mandar, está a esquecer-se de que estes resultados também são fruto da arrogância e prepotência, do querer escorraçar quem pensa diferente. Pode ser que lhe façam a “vontade”, saiam todos do partido para que ele fique, como sempre quis, sozinho a mandar. E pode ser que lhe ensinem a ter dignidade na derrota, já que foi parca essa virtude nas vitórias.

O povo merece os parabéns, parece que resolveu optar pela mudança. Ainda não acredito bem nisto, afinal em toda a minha vida adulta sempre vi o contrário. Até mesmo quando se justificavam outros resultados nas eleições, os madeirenses acreditaram em Jardim e no PSD. Mesmo com desemprego, dívidas e impostos. E vendo sempre os mesmos na malga do poder, a distribuir tachos pela família. Algo aconteceu para que este povo que nós conhecemos (?) tivesse este gesto e obrigasse a repensar toda uma geração que veio a governar a Madeira nas três últimas décadas. Foi o efeito Coelho? Foi o PND? Foi Albuquerque? Foi a consciência que levou os madeirenses a penalizarem o PSD? Foi o próprio partido que não suporta uma renovação pacífica? Oxalá não estraguem estes ventos de mudança aqueles que tomam agora conta do poder local. E oxalá não tenhamos que pagar portagem para passar de Câmara de Lobos para a Calheta, porque o festival sudoeste está lá instalado nos próximos quatro anos.

Estou ansioso para ver o que vai esta nova edilidade funchalense fazer. Porque falar na oposição é diferente de executar na vereação, não espero justificações balofas do género daquelas em que “isto não é bem aquilo que pensávamos encontrar”. Claro que queria as estradas sem buracos, passes para idosos e estudantes, água mais barata, IMI anulado. Há coisas com que sempre sonhamos, mas lembrem-se de que o euromilhões, por impossível que pareça, tem sempre uma ínfima hipótese de nos sair. Mas apenas se jogarmos, é a única condição. E houve gente que jogou muito neste 29 de Setembro. Veremos se tem prémio ao fim de quatro anos. De parabéns estão todos os edis eleitos e quem os elegeu. Agora tratem de justificar essa confiança que nós, munícipes, faremos por colher os frutos das nossas apostas. Aqui, no Funchal, tal como nas outras dez santas casas.

Paulo Gomes