Jorge Gomes No alto desse pedestal PORQUE NÃO VOS CALAIS, senhor?

Vinde, descei e vinde ouvir o povo, não só aquele que vos acompanhou em festas e romarias onde o pão e vinho nunca faltou, mas todo um povo que está cansado de promessas por cumprir, ultrajes brejeiros e insolências, todo um povo que hoje está em festa porque sentiu finalmente desrespeito em tanto tempo de oligarquia, pois as portas desta Ilha Azul para Abril jamais se abriram, muitos dos seus filhos partiram porque em Abril acreditavam, e ao silêncio outros se remeteram. Talvez pelo pão, talvez pela paz!

Vinde, descei desse pedestal e vinde ouvir o povo cansado de mentiras, de truques de semântica, e que jamais quer ouvir falar de Madeira Velha ou Madeira Nova, jamais quer ouvir falar de ingleses, cubanos, maçonaria, de gentalha de Lisboa, de canalhas e drogados, de bêbados e gente reles, de pé-rapados ou de senhorios e das suas malfeitorias a gente pobre, gente humilde, mas a que o antigo regime autoritário também e das vossas graças nunca foi capaz de lhes pôr cobro.

Vinde, descei desse pedestal e vinde ouvir o povo cansado de lutas verbais contra um seu inimigo que a esse mesmo povo não trata mal e a muitos dá emprego, e que em manifestação de profundo desprezo se remete ao um silêncio de coragem e classe, uma das armas que tal como o voto ou o ridículo fere ou mata tantas vezes!...

Vinde, que este povo que rejubila porque usou o voto para derrubar quem ousou trata-lo sem respeito, este povo, o que vota e mesmo o que não vota, porque se desinteressaram uns, ou porque muitos a viver nos limiares da pobreza ou para além dela já, este povo, cansado mas ainda com esperança, com muito mais esperança ainda e apesar de tudo, mesmo que não vos veja descer desse pedestal, em uníssono rua a rua, praça a praça, bairro a bairro ou furna a furna, decidiu gritar bem alto para o alto desse vosso pedestal: “PORQUE NÃO TE CALAS?”