Paulo Silva Sou organista diplomado pela Universidade Católica do Porto. O meu curriculum é público, e pode-se constatar que tenho provas dadas como organista concertista, quer a solo quer com grandes coros e orquestras. Tenho estado sereno, a assistir ao acontecimento chamado “Festival de Órgão da Madeira”, mas o que aconteceu nesta edição de 2013 exige um esclarecimento ao público. Eu cresci num meio em que se tinha a Igreja Católica como sendo composta por gente com os valores cristão e humanistas, como sendo a fraternidade, a entreajuda, o despojo de bens materiais. Pois bem. Desde a inauguração do órgão da Igreja do Colégio, desenvolveram-se acontecimentos vergonhosos, nos quais fui totalmente desconsiderado e ignorado, como organista e como agente musical eclesial, a actuar na Ilha da Madeira. Para começar, a pedido do construtor do referido órgão, disponibilizei-me e estive presente durante a parte final da montagem e entonação daquele instrumento. Apesar de estar presente e ao dispor do construtor, fui acusado de nunca ter lá estado presente!! Fui convidado e aceitei o cargo de organista titular daquela Igreja, sendo depois dispensado... pela DRAC. Até hoje não me deram justificações nem nenhum tipo de reconhecimento. Desde então, este chamado “festival” tem sido organizado com um único critério: o seu organizador pretende unicamente tirar proveito pessoal deste acontecimento, e de forma clara e infeliz, do ponto de vista de quem está por dentro desta área. Apenas convidando organistas maioritariamente estrangeiros e de importância relevante, a intenção é simplesmente: “eu convido-te, e tu convidas-me por obrigação”. Ora, com tanto organista português muito bom, porquê não aproveitar a «prata da casa», e com isso, promover o produto nacional? E, ainda com isso, tendo concertos de igual ou superior nível. E, ainda, poupar dinheiro à economia da Região. Mas esta edição foi por demais evidentemente escandalosa, pelo seguinte: finalmente, convidaram para uma conferência o titã, o grande especialista em música sacra a nível nacional: o Cónego Ferreira dos Santos, meu tutor durante a minha formação. Excelente escolha, sem dúvida, não fosse o interesse por detrás disso: o Cónego Ferreira dos Santos é reitor da Igreja da Lapa, no Porto, cujo órgão é simplesmente o maior, se não também o melhor de toda a Península Ibérica. Se por detrás deste convite não está um interesse pessoal de quem nunca tocou naquele órgão, no qual eu fui organista durante 10 anos, então esclareçam-me! Como se não bastasse, convidaram também o organista titular da mesma Igreja, reforçando o interesse em fazer concertos nesse órgão. Isto é Igreja? Isto é fraternidade e entreajuda cristã? Isto é promover a Cultura? Além de tudo, a Região investiu largos milhares de euros a recuperar (mal ou bem) os órgãos da Madeira, para estarem parados, durante todo o ano! Qualquer pessoa sabe que um instrumento deve ser tocado com frequência, ou desafina, degrada-se e apodrece. Não se vê cá organistas portugueses com provas dadas de reconhecido talento, porquê? Do meu ponto de vista, há duas razões muito óbvias: 1) quem não pode dar contrapartidas, não é convidado; 2) quem tem talento e começou a dar provas disso, mete medo e faz sombra a interesses instalados, tidos como “bons organistas”; logo, é ofuscado para ser esquecido. Muito mais havia a denunciar, mas a compreensão e o perdão são valores cristãos, que procuro manter. Se vale de alguma coisa, aqui fica o apelo: aproveite-se e promova-se o que há de bom em todas as áreas, principalmente na Cultura, que tanta falta faz a este país.