Nos últimos quatro anos temos assistido à falta de capacidade da Europa em responder à crise e, acima de tudo, em funcionar. Era suposto a Europa ser uma família, e até o é, mas, como todos sabemos, há famílias que se dão bem, e outras que se dão mal. Quando os tempos são bons e todos andam satisfeitos (artificialmente ou não), todos parecem dar-se bem, mas é nos tempos difíceis que se vê a verdadeira força e união dos seus membros. Pelo que temos visto na Europa, no fundo, ninguém gosta muito dos seus “familiares”. Numa família unida, quando um membro tem dificuldades, o normal é sentarem-se todos à volta de uma mesa e, entre todos, ajudarem o familiar em questão. Na Europa, sentam-se todos à volta da mesma mesa, mas, em vez de discutirem como ajudar, discutem como impedir que o problema de um se torne num problema dos outros. Na realidade, é quase indiferente que o membro em dificuldades consiga resolver o seu problema a bem, ou que morra. Enquanto faz todo o sentido ter uma Europa forte, neste momento é altamente questionável se deveremos continuar por este caminho do “faz de conta”, como se fossemos todos amigos, ou simplesmente mudar a direcção do país e perguntar à Europa: vamos sozinhos ou acompanhados? Qualquer pessoa sabe e percebe que, ao se destruírem empresas, se destroem empregos. Ao se destruírem empregos, corre-se o risco de destruir famílias. Ao se destruírem famílias, as pessoas abandonam o país, e o país acaba destruído. Infelizmente, é a isto que temos assistido e, ou a Europa assim o quer, ou a incompetência é de uma gravidade extrema. Se nós não queremos que isto continue a acontecer, temos de decidir mudar e esperar que nos acompanhem. Temos duas possibilidades: ou vamos no sentido de criar emprego e riqueza, ou no sentido de tornar Portugal uma província da Europa, onde existirá uma elite que viverá bem, porque fará trocas comerciais com o exterior, e o resto apenas sobreviverá (seremos aqueles tipos que tiveram sonhos, vontade de empreender, mas que acabaram por se contentar com pão e água). Para mim, já é suficientemente triste saber que Portugal, que descobriu meio mundo, é o que é na actualidade. Muito nos têm dito que vamos no caminho certo mas que apenas não o parece porque estamos a fazer um desvio para podermos pagar a divida aos nossos credores. Devemos, então, pedir que nos expliquem como se pagará essa dívida. Como todos sabemos, se uma empresa fecha, deixa de pagar impostos (seus e dos seus trabalhadores) e, ao fechar, cria desemprego, o que leva a que as pessoas deixem de pagar impostos (IRS e SS), e a que o estado gaste dinheiro com subsídios de desemprego. Ou seja, o estado precisa de mais dinheiro para pagar a sua divida, mas escolhe, não só receber menos, como gastar mais. Questão: Se o caminho não interessa aos portugueses, não interessa ao estado e não interessa aos nossos credores, interessará a quem? Já está na altura de se começar a falar a verdade. Se a Europa decidiu que se ia organizar desta maneira, em que Portugal será uma província com meia dúzia de empresas exportadoras e turismo, tudo bem, mas digam-no. Até pode ser que os portugueses o queiram, mas todos têm o direito de saber o que os espera neste país e, assim, poder decidir o que fazer com a sua vida. A quem realmente interessa que estejamos a percorrer este caminho? Porque escolhe o governo este caminho com tanta determinação? Ao fazer esta pergunta, recordo a forma como, há muitos anos, os países colonizadores dominavam os novos territórios. Ao desembarcar, reuniam com o chefe da tribo e diziam: “Tu estás comigo, não te faltará nada. Agora põe o teu povo a fazer o que nós queremos”. Há cerca de dois anos, as pessoas elegeram um governo que propôs um caminho à população. A maior parte das pessoas acreditou que não só estava a escolher esse caminho como ainda a eleger um governo para representar Portugal na Europa. Dois anos depois, as pessoas perceberam que não elegeram um governo para representar Portugal na Europa, mas sim a Europa em Portugal.
Martim Macedo - Gestor