Às inseguranças naturais de quem sofre para pagar as contas, o ex-PM acena com a megalomania Dizia o Padre António Vieira não haver “alegria neste Mundo tão privilegiada, que não tenha de pagar pensão à tristeza”. Suspeita-se também do contrário. Que, na tristeza, a alegria também não se faça pagar mal. Seria isso, então, a tragicomédia - aquilo a que se referia Mel Brooks, quando adiantou que “Tragédia é quando eu corto o dedo. Comédia, é quando outra pessoa cai num buraco e morre”. Mas o que será quando outras pessoas cortam os dedos? Ou quando outros caem no buraco, mas ficam vivos? Aparentemente, não é tristeza nem alegria, mas uma farsa. Ou é isso que resulta, pelo menos, da entrevista do ex-primeiro-ministro à revista do jornal Expresso. A produção é lúrida e magnífica. Um triunfo da iconografia da ressurreição, com a sua distância, altitude, luz frontal e planos subidos. Do alto de uma torre, sobre o estuário platinado do Tejo, Sócrates surge contemplativo, franco e assertivo. Na franqueza, os deslizes. Proclama ser o “chefe democrático” que a direita sempre quis, com toda a carga tribal do primeiro termo e todo o falso pressuposto do segundo. Alude a uma lei das finanças regionais aprovada pela “direita, mas que foi secundada pelos insuspeitos BE, PCP, os Verdes, e um deputado do PS-M. Critica os “fanáticos” que vêem a política como o terreno da verdade e da mentira e do bem e do mal, mas não se dispensa do fanatismo em posteriores insultos e juízos de valor. Pelo meio, a mentira central, o bordão, a apologia de Sócrates. A de que o PEC 4 não se trataria, como os três primeiros PECs, de um placebo para uma economia viciada em esteróides de dívida externa, cozinhado com o BCE para aguentar o barco o mais possível, mas de uma panaceia para um Estado com um simples problema de tesouraria, que evitaria o resgate. Sendo uma mentira, tudo indica que o seu profeta acredita nela e, com ele, parte significativa do povo português. Às inseguranças naturais de quem sofre para pagar as contas, o ex-PM acena com a megalomania, narcisismo e insurreição imponderada com que os portugueses, na sua raiva, gostariam de poder confrontar os seus credores. Daí a ligação, decerto intencional, entre a narrativa de Sócrates e o imaginário universal. Do menino ambicioso da Covilhã, que não ligou aos estudos mas era esperto. Homem de acção temerário e rebelde, mostrou, com dureza “que não se finge”, a essa gente de Lisboa e da Europa como é que era. Uma vez traído por todos quantos invejavam a sua obstinação, talento e poder, recolheu ferido para “a civilização”, onde se aperfeiçoou, regressando com ostentação orgulhosa “das marcas da batalha”. É o monomito de Joseph Campbell. É o herói vitimado pelo sistema e pela convenção, legitimado pela perseguição e sofrimento. Os aplausos que se seguiram são bom exemplo do apanágio de que uma boa dose de inteligência consegue ser aplicada na ignorância quando a necessidade de ilusão é forte. O mundo de Sócrates é, de facto, mais feliz, binário e fácil do que este, e acreditar nele é uma alegria que muitos não dispensam. Mesmo quando a tristeza, profunda e realista, lhes vem cobrar a pensão. Pedro Fontes
Às inseguranças naturais de quem sofre para pagar as contas, o ex-PM acena com a megalomania
Dizia o Padre António Vieira não haver “alegria neste Mundo tão privilegiada, que não tenha de pagar pensão à tristeza”. Suspeita-se também do contrário. Que, na tristeza, a alegria também não se faça pagar mal. Seria isso, então, a tragicomédia - aquilo a que se referia Mel Brooks, quando adiantou que “Tragédia é quando eu corto o dedo. Comédia, é quando outra pessoa cai num buraco e morre”. Mas o que será quando outras pessoas cortam os dedos? Ou quando outros caem no buraco, mas ficam vivos? Aparentemente, não é tristeza nem alegria, mas uma farsa. Ou é isso que resulta, pelo menos, da entrevista do ex-primeiro-ministro à revista do jornal Expresso. A produção é lúrida e magnífica. Um triunfo da iconografia da ressurreição, com a sua distância, altitude, luz frontal e planos subidos. Do alto de uma torre, sobre o estuário platinado do Tejo, Sócrates surge contemplativo, franco e assertivo. Na franqueza, os deslizes. Proclama ser o “chefe democrático” que a direita sempre quis, com toda a carga tribal do primeiro termo e todo o falso pressuposto do segundo. Alude a uma lei das finanças regionais aprovada pela “direita, mas que foi secundada pelos insuspeitos BE, PCP, os Verdes, e um deputado do PS-M. Critica os “fanáticos” que vêem a política como o terreno da verdade e da mentira e do bem e do mal, mas não se dispensa do fanatismo em posteriores insultos e juízos de valor. Pelo meio, a mentira central, o bordão, a apologia de Sócrates. A de que o PEC 4 não se trataria, como os três primeiros PECs, de um placebo para uma economia viciada em esteróides de dívida externa, cozinhado com o BCE para aguentar o barco o mais possível, mas de uma panaceia para um Estado com um simples problema de tesouraria, que evitaria o resgate. Sendo uma mentira, tudo indica que o seu profeta acredita nela e, com ele, parte significativa do povo português. Às inseguranças naturais de quem sofre para pagar as contas, o ex-PM acena com a megalomania, narcisismo e insurreição imponderada com que os portugueses, na sua raiva, gostariam de poder confrontar os seus credores. Daí a ligação, decerto intencional, entre a narrativa de Sócrates e o imaginário universal. Do menino ambicioso da Covilhã, que não ligou aos estudos mas era esperto. Homem de acção temerário e rebelde, mostrou, com dureza “que não se finge”, a essa gente de Lisboa e da Europa como é que era. Uma vez traído por todos quantos invejavam a sua obstinação, talento e poder, recolheu ferido para “a civilização”, onde se aperfeiçoou, regressando com ostentação orgulhosa “das marcas da batalha”. É o monomito de Joseph Campbell. É o herói vitimado pelo sistema e pela convenção, legitimado pela perseguição e sofrimento. Os aplausos que se seguiram são bom exemplo do apanágio de que uma boa dose de inteligência consegue ser aplicada na ignorância quando a necessidade de ilusão é forte. O mundo de Sócrates é, de facto, mais feliz, binário e fácil do que este, e acreditar nele é uma alegria que muitos não dispensam. Mesmo quando a tristeza, profunda e realista, lhes vem cobrar a pensão.
Pedro Fontes