O novo poder saído do acto eleitoral do passado dia 29 de Setembro está a ser empossado o que origina uma recomposição no mapa autárquico.
Coisa que não é exactamente surpreendente dada a circunstancia de a situação político social ser determinante de inevitáveis alterações. Mas não é exactamente por aí que passa o grande ensinamento destas eleições já que isso era mais ou menos esperado. O lado surpreendente vem do modo como alguns independentes discutiram palmo a palmo a vitória final e em alguns casos até ganharam. Desde logo Rui Moreira, no Porto.
Na verdade, tendo-se consciência da influência que assumem as máquinas partidárias, existia a consciência da indispensabilidade do enquadramento numa organização assente em partidos para reunir possibilidades de vitória numa eleição nacional. Tinha-se por possível o triunfo de uma candidatura independente em pequenas circunscrições. Mas nunca na segunda maior urbe do país, conforme é o caso do Porto. E, contudo, Rui Moreira triunfou na maior cidade do Norte do país em confronto com Luís Filipe Menezes, um ex-Secretário Geral do PSD e como tal um homem com um óbvio domínio da máquina partidária. O que, diga-se, não era necessariamente expectável!
O que correu mal então ao PSD e ao seu candidato? Antes de mais o mau momento do país que tinha necessariamente que projectar-se sobre um candidato demasiadamente ligado ao aparelho do partido. Depois, a circunstancia de o eleitorado não ter aceite de bom grado o golpe de rins protagonizado não apenas por Menezes mas igualmente por Fernando Seara, e por Fernando Costa, entre outros, que, impedidos de concorrerem pela circunscrição onde já haviam cumprido três mandatos, decidiram controlar a lei candidatando-se por uma autarquia onde não tivessem cumprido qualquer mandato nos últimos quatro anos. A habilidade suscitou de princípio reservas e mesmo muitas dúvidas, mas a pronuncia do Tribunal Constitucional acabou por abrir caminho a quem tinha vontade de apresentar-se pelo menos a um quarto mandato consecutivo.
Aconteceu, contudo, que a luz verde para o efeito apenas haveria de chegar quando os candidatos já estavam praticamente alinhados na grelha de partida o que favoreceu claramente quem se encontrava no terreno havia mais tempo. Por último, o facto de o eleitorado se mostrar saturado de candidatos já muito vistos, incapazes de puxaram de um numero novo susceptível de poder surpreender alguém. Esse foi manifestamente o caso de Luís Filipe Menezes muito mais do que Fernando Seara ou Fernando Costa.
Mas a vitória de um e a derrota do outro, consoante a perspectiva por que se analise o facto, convoca uma outra questão: a saturação mostrada pelo público relativamente a um sistema e a um modelo que já não têm nada de novo para oferecer. E a certeza de que Rui Moreira, mais do que Marco Almeida, que reuniu uma grande votação em Sintra, constituem a prove provada de que existe espaço para experiências á margem do sistema partidário que tem assim que ser encarado como não constituindo uma inevitabilidade.
Se a vitória de um independente na cidade do Porto e a derrota de candidatos com a experiência autárquica de Fernando Seara, de Luís Filipe Menezes e de Fernando Costa nomeadamente pelas razões que já se aduziram constitui a grande lição destas eleições, um facto ocorreu que não pode deixar de merecer uma cuidada análise, designadamente pela repercussão de que vai revestir-se: é o caso dos resultados da Madeira.
Confrontado em sucessivas oportunidades com o acelerado desgaste que a sua imagem tem vindo a sofrer, Jardim sempre ignorou que o exercício de décadas de governação ocasionam um irremediável desgaste cujas consequências nenhuma operação de cosmética é capaz de controlar. E sempre respondeu a quem assim o questionou com o respeito que lhe merecia o voto popular, significando com isso que enquanto o sufragassem com voto dos eleitores iria manter-se no exercício do cargo. Fazendo ouvidos de mercador aos sinais que de todo o lado iam chegando de desagrado com sucessivos desmandos da sua governação.
Jardim parece não ter-se apercebido de que tudo tem um fim inevitável e que o seu ciclo caminhava a passos de gigante para o fim. Se outras razões não avultassem o facto de os meios para financiar a obra - a “sua obra” – caminharem para o esgotamento, constituía um sinal inequívoco. Mas Jardim não quis ver os sinais, persistindo em tirar da cartola as mesmas cartas de que tinha feito uso com assinalável sucesso durante anos de governação. Jardim não se mostrou capaz de compreender que até mesmo o povo madeirense, a quem ele classificou num “numero” de muito duvidosa originalidade e de ainda mais duvidoso bom gosto de “povo superior”, tem as mais das vezes uma maior dose de intuição do que a de quem o manipula. E o resultado é o que está à vista!
Carlos Sequeira