O título é assumidamente uma cópia, embora 'pluralizada', de um conto daqueles que nos davam a ler através da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian ou em alguns manuais escolares. Era um texto divertido, didáctico e acompanhado por ilustração óbvia de um velho, um rapaz e um burro. A diferença é que este texto não tem nada de divertido, não tem ilustração e duvido que tenha algum valor didáctico. Ao contrário do título original, optei por uma versão colectiva porque entendo que, na Madeira deste momento, existem três categorias essenciais onde cabemos lá todos. Os 'velhos', que são aqueles que nos governam, os 'rapazes', que são os que se governam, e os 'burros', que somos todos nós, os outros, os que permitem que isto aconteça. Vamos por partes e sem ofensa para ninguém: com mérito próprio e distracção de muitos, o presidente do Governo Regional chegou ainda jovem a esse cargo e por lá ficou na meia-idade e até chegar a idoso. Isso, só por si, não faz dele um mau presidente, quando muito fará de nós uns cidadãos desinteressados, para não nos chamar outra coisa. Numa sociedade que cada vez mais, e ainda bem, respeita os mais velhos, é evidente que a idade não é para aqui chamada. Agora, a situação muda quando o presidente idoso reage como um velho vingativo. E o presidente que temos tido nos últimos anos, aquele que tanto se habituou a passear como a desmandar, aquele que passa quase uma semana por mês por essa Europa fora a fazer não se sabe bem o quê, aquele que tira estradas e jardins a concelhos que o mandaram gozar a reforma em vez de gozar do povo, ora esse deixou de ser um presidente idoso para ser um presidente velho. Daqueles capazes de deserdar um filho porque não seguiu o curso que o pai queria, porque não foi à tropa ou porque descartou a filha do amigo do velho pai para viver uma rapariga de fora. Mais do que parecer ridículo, a verdade é que é mesmo ridículo esta fase de governação a que estamos entregues, pelo menos desde 2007. E andamos nisto, às voltas, com a pequena intriga feita desígnio regional. Qual política para o emprego, qual estratégia para a inclusão, qual plano para a juventude, qual projecto para criar riqueza. Nada disso. O idoso que nos governa, acompanhado por outros idosos não tão 'velhos' de espírito, secundariza tudo isso. O importante é meter a faca nas costas do autarca eleito pela oposição, mexer os cordelinhos para garantir o poder entre os seus no próprio partido e dizer umas balelas para Lisboa, apenas para mostrar que está vivo. Mas atenção que atitudes destas mostram não apenas o carácter do velho presidente como o de outros governantes e adjuntos e conselheiros e autarcas e apoiantes bem mais novos mas igualmente 'velhos', talvez mais até do que o líder que se recusa a arrumar as botas. Quem pactua com tudo isto sem nada dizer, sem pestanejar, sem se perguntar, sem abrir a boca, quem come e cala, por mais novo que seja, é igualmente velho de carácter. Porque pensa que estamos ainda no tempo da velha senhora, porque minimiza os outros, porque se vê ao espelho e acha que é o maior, mesmo que seja apenas o maior embuste e corra o sério risco de passar a ser o maior adversário se se permitir ousar discordar. Nesta aparente ordem natural das coisas na dita Madeira contemporânea, o que não faltam são 'rapazes'. Sobretudo bons rapazes que aprenderam a governar-se ao longo dos tempos. Têm como lema: "se não podes com eles, junta-te a eles". E eles juntam-se. No fundo, também criticam e discordam, mas sempre baixinho e com a maior ausência de compromisso. Não é ingenuidade, é esperteza. Saloia, mas em dose suficiente para enganar muito 'velho' que se acha tão inteligente ou quase como o único importante. Os 'rapazes' são possuidores de uma longa coluna vertebral, tão firme como uma vara de feijão verde que abana para o lado que dá mais vento. E eles abanaram sempre para o mesmo lado nos últimos anos. Agora é que as coisas começam a ficar mais difíceis e os 'rapazes' são obrigados a esticar o pescoço para ver de que lá está o vento. Uma coisa é certa: é para lá que eles viram. Por isso, não me vou admirar quando em Santana encontrar um 'rapaz' tão convicto dos ideais do CDS, que chegue a Machico e seja socialista desde pequenino e que, em Câmara de Lobos, seja um defensor da social-democracia à moda da Madeira. No fundo da pirâmide está a maior porção de gente. São os 'burros', no sentido figurado, obviamente, que carregam com este sistema há anos. Atenção que entre eles há pelo menos duas categorias diferentes: os convictos de que a Madeira é o melhor dos mundos e ai do que será de nós se um dia, por acaso, o Criador nos tirar os 'velhos'; e os resignados, que não têm nada a ver com isso, que não querem que os chateie, que essa coisa da política é para os políticos. Esses são os mais perigosos. Porque a ignorância é atrevida e pende para o lado que faz sol, onde está mais quentinho. São como os adeptos de futebol que são dos clubes que ganham julgando que com isso ganham eles alguma coisa. Entre este tipo de cidadãos, nem uns nem outros chegarão ao estatuto de 'rapazes' ou de 'velhos'. Os convictos, porque acreditam que ninguém, mas mesmo ninguém, é capaz de fazer melhor; e os ingénuos porque nem querem saber o que é isso. Mas há ainda uma terceira categoria entre os 'burros'. São os que estão fora deste circo e vão denunciando, criticando, propondo medidas, fazendo ver que nem tudo é mau, mas também não estamos no Paraíso. Um significativo grupo de entre estes 'burros' foi capaz de pregar um susto aos 'velhos' e aos 'rapazes' nas últimas eleições. E é claro que também eles, agora no poder, não serão capazes de agir sem falhar. Mas para isso existe um sistema chamado democracia, que permite premiar ou castigar, consoante o desempenho de cada um. Se no caso do conto, a moral da história mostra que não se pode agradar a todos os que criticam e dão palpites, no caso verídico da Madeira essa teoria também está presente mas vem embrulhada numa folha de jornal onde se pode ler, à borla mas pago por todos nós, que apenas 'velhos' e 'rapazes' têm sempre razão, por mais errados que estejam. Os 'burros' que paguem a conta, dirão uns e outros. E nós temos pago. Moral desta história: é tempo de 'velhos' e 'rapazes' deixarem de montar os 'burros'.