“Este País não é para Velhos” é o título dum oscarizado filme de 2007, da autoria dos irmãos Joel e Ethan Coen. Não se tratou duma adaptação ao cinema do Orçamento de Estado Português, pois nesse caso poderia bem dar origem a várias sequelas: “Este País não é…para Novos”; “…para Empresas”; “…para Restaurantes”; “…para Reformas” etc.
Mas quem é o responsável por termos chegado a este ponto? Quem tem mais culpa? Este P.M., o anterior, todos eles?
A tendência que ganha força na comunicação social, tão intensa que até parece orquestrada, vai no sentido de apresentar José Sócrates como uma infeliz vítima do ambicioso e ultra-liberal Passos Coelho. Afinal o famigerado PEC IV era a salvação de Portugal, Sócrates foi o melhor líder governativo pós 25 de Abril, que até estava a pôr as contas públicas em ordem, transmitia confiança aos mercados, exportava tecnologia, e foi injustamente perseguido com acusações nunca provadas, desde o Freeport à licenciatura e ao inusitado enriquecimento da progenitora. Este senhor agora é Mestre em tortura por uma universidade de “la belle Paris” (rica vida, diz ele!), tem tempo de antena na RTP (serviço público, dizem eles!), e dá entrevistas nas quais distrata meio mundo: bandalhos, filhos da mãe, pistoleiros, estupor pr’aqui, merda pr’ali, nem o António Fontes dispara tanto, que a Élia zanga-se… (é a revolta dum homem injustiçado, dirão alguns!).
É claro que estamos a viver os dias mais negros das últimas décadas. Quando precisamos desesperadamente de ver uma ténue luzinha ao fundo do túnel, dão-nos mais do mesmo: austeridade, cortes, impostos. Sinais de esperança, muito poucos, a não ser a remota esperança de evitarmos um segundo resgate, despacharmos a troika e regressarmos aos mercados…Para isso é preciso termos condições para sobreviver até lá, o que se afigura como missão quase impossível. Não há confiança, nada é garantido, parece que vale tudo e tudo é confiscável…
Passo Coelho é culpado? Sim, porque quis ser mais “troikista” que a “troika”, porque devia ter chegado a meio do percurso e batido o pé, afirmando que aos bons alunos se deve premiar o mérito e não agravar o castigo, lutando pela flexibilização das metas, pelo aligeirar dos juros, por remédios menos amargos e mais efectivos. Não o fez, e agora encontra-se espremido, num beco sem saída, sem qualquer margem de negociação e obrigado a apresentar um orçamento brutal, que politicamente configura um suicídio e mesmo assim pode não ser suficiente para chegarmos lá…
Passos Coelho parece um administrador de insolvências mandatado pelos credores para gerir e liquidar esta massa falida a que chamamos País. Mas não nos esqueçamos de quem tudo fez para nos colocar neste buraco…
Não podemos ter memória curta, nem permitir o branqueamento dos disparates do passado. E daqui quase ninguém sai impune:
Mário Soares, que agora trata os governantes por delinquentes e clama que devemos dizer à troika que não pagamos, também chamou o FMI, aplicou austeridade e cortou salários e regalias. Coerente, não? Ou será raiva porque a pensão vitalícia vai acabar…?
António Guterres, sem dúvida um Homem Bom, legou-nos as SCUT (amantes caríssimas), a factura do Euro 2004 e a megalomania da Expo 98. Quanto é que estes desvarios de novo-rico nos estão ainda a custar? É só fazer as contas, Sr. Engenheiro…
Cavaco Silva, que há mais de 20 anos diz que não é político e até se queixa da reforma, aumentou brutalmente o número de institutos e funcionários públicos, fez a Ponte Vasco da Gama, permitiu que se desbaratassem milhões de fundos estruturais e fomentou uma política de betão. O Senhor Professor de Finanças nunca achou perigoso tanto défice e financiamento externo durante a sua governação?
E finalmente José Sócrates: duplicou a Dívida Pública, baixou impostos e aumentou salários por razões meramente eleitoralistas, mascarou as responsabilidades do estado atirando-as para “fora do balanço”, engendrou PPP’s que são ruinosas, beneficiou os grandes grupos económicos à custa do erário público…
Mas lá foi dizendo aos portugueses que estava tudo bem, qual Alice no País das Maravilhas, até ser obrigado a ajoelhar e pedir ajuda. É este senhor que prepara agora o seu regresso à ribalta, e a quem não faltam seguidores – e os outros é que são bandalhos? Porreiro, pá!
Raul Ribeiro