O que constitui uma civilização? Para além das óbvias estruturas culturais, tecnológicas, políticas e económicas, o que define radicalmente uma civilização parece ser uma dada mentalidade; uma maneira de ver, ser e agir no mundo sobre o mundo.

Se assim é, como deveremos chamar a civilização onde vivemos e que envolve, hoje, a maior parte do nosso planeta? Ocidental? Industrial-capitalista? Racional-científica? Liberal globalizada? Provavelmente todas estas designações se aplicam a ela. Mas, não haverá uma que as englobe a todas? E porque não ‘burguesa’? Termo demasiado batido e anacrónico vociferarão muitos. Não, de acordo com o falecido António José Saraiva (A.J.S.).

No seu brilhante, e pouco conhecido, livro «Maio e a Crise da Civilização Burguesa» (Europa-América, 1970), o autor qualifica de ‘mentalidade burguesa’ a maneira contabilizadora de olhar para os seres da natureza, incluindo os humanos, como ‘quantidades’ mensuráveis de energia, trabalho e capital em si disponíveis para a produção, manipulação e trocas económicas, ignorando o seu valor intrínseco. Segundo A.J.S., tal mentalidade, tendo algumas raízes num certo intelectualismo grego, remontaria ao modo de estar e entender o mundo dos burgueses medievais, artesãos e mercadores sem ligação especial à terra (ao contrário dos camponeses e dos aristocratas), e que só valorizavam o que podiam manipular, transformar e trocar por numerário.

Para A.J.S., foi essa a mentalidade que triunfou, filosoficamente nos séculos XVII e XVIII, e politicamente e economicamente após a Revolução Francesa e Revolução Industrial. E que conduziu ao niilismo contemporâneo, onde se levou a contabilização e coisificação da vida aos extremos do relativismo ético e aos abismos do Nada…

Como poderemos sair civilizacionalmente dos labirintos do cálculo subtractivo, sem regredirmos a passados mitificados, e sem nos alienarmos nos delírios transhumanistas de futuros pouco humanos?

As respostas são de vária ordem. Para A.J.S. seria preciso uma funda mudança espiritual, baseada no que de incomensurável e de profundamente subjectivo ainda radica no nosso espírito quase dilacerado…

Mas isso fica assunto para futuras meditações.

Miguel Santos