Último dia do verão.À sombra, aguardo que cheguem os visitantes e a curadora, que nos guiará por 6 + 6,a exposição que me traz à ‘Fabrica de Cultura’ de Minde,edifício fabril devoluto que uma associação cultural pretende tornar habitado para fruição geral. São 6 olhares – noutrastantas fábricas – sobre a indústria têxtil de Minde, numa produção do Festival Materiais Diversos. Dos sete visitantes inscritos somos apenas dois. Para que serve a arte, afinal? O espaço é amplo mas fechado à vista geral. O que se consegue vislumbrar da cenografia museográfica que se abrirá é, no entanto, bem estimulante. Indica um caminho a percorrer mas que a todo o instante permite fugas... atrás, adiante, a pontos de escuta, literalmente, que mais tarde se completam na proposta sonora de Miguel Constantino. Há os vídeos de Rita Rio montados em minúsculas mesas horizontais para fruição singular, que referem desde logo a posição de trabalho duma das profissões daindústria têxtil: a costureira sentada em frente à sua máquina de costura. Há o comentário político-plástico de Catarina Dias em 4 grandes mantas de retalhos minuciosamente cosidas e penduradas do tecto até ao chão. Seguem-se os candeeiros de chão/mesa/tecto feitos com longas mangas de malhas, numa proposta do designer Henrique Ralheta. Há a música do Miguel, as fotografias do Carlos Lobo e a intervenção objetual-gráfica, também com comentário político, de Marco Ballesteros. Uma hora e meia de tranquila viagem a diferentes universos de criação artística. E tudo isto se desenrola no rés-do-chão da antiga fábrica, enquanto no piso superior, mais difícil de intervencionar para acolher a mostra, foi ainda preparado um breve itinerário epilogar onde a curadora e os 6 artistas oferecem apontamentos contextuais das suas experiências de trabalho para a produção das obras. Belíssima forma de fechar-abrindo...
Carlos Soares