
O “Povo Superior” é um mito que caiu por terra na noite de 29 de Setembro. Mais do que a mudança que revitaliza a democracia, mais do que a alternância de poder sempre bem-vinda, mais do que esta desesperante necessidade de ajustar as prioridades políticas à realidade dos cidadãos, a Madeira festeja a morte do medo, o afrontamento à máquina do amedrontamento e faz o funeral de todos aqueles eufemismos de retórica criados pelo jardinismo, entre os quais, a figura do tal Povo Superior, essa grande fraude que serviu para enganar, camuflar e, simultaneamente, tirar o maior dos proveitos políticos, e não só, do analfabetismo, da iliteracia, do conformismo, da apatia, da humildade e da ingenuidade do povo madeirense.
Os grandes derrotados destas eleições autárquicas foram todos aqueles que perderam o pulso das pessoas e alinharam na fórmula de cultivar os mesmos atestados de menoridade num povo que julgavam cego pelo obscurantismo intelectual e refém de abastadas tigelas laranjas, agora transformadas em pratos rasos emprestados pela ‘troika’ e pela Lei de Meios onde só cabem tetrápodes de betão, rocha e alcatrão que não enchem um dente.
No último domingo, o povo desfez em sete bocados o crânio do pensamento único. E apontou um novo rumo ao futuro. Pode haver muitas dívidas, mas há a certeza de uma coisa: nada poderá voltar a ser como dantes. Sem chaimites nas ruas, chegou a revolução da manifestação da consciência individual, a concretização da liberdade de expressão para além das paredes falantes, dos muros das lamentações ou dos murros nas mesas dos cafés. Tudo isto já se sentia, em surdina. Sem machados de guerra, sem tácticas obscenas, o veredicto popular ditou um novo ciclo.
Por ironia do destino, assinou-se nas urnas a certidão de óbito dos eufemismos, das hiperbolizações, das farsas do regime. A democracia que floresce por estes dias na Madeira está carregada de figuras de estilo. Afinal, não há Povo Superior nenhum. Descobriram que o povo, mesmo mantido no breu, tem os olhos abertos e até enxerga bem a imoralidade, a prepotência, o caciquismo, a demagogia e sabe tirar ilações de todos aqueles ataques vis e infames produzidos diariamente pela máquina de propaganda do poder para diabolizar quem pensa diferente. Ao fim de 37 anos, o povo demonstrou que não quer mais ser superior. Quer ser igual a si próprio. Soberano.