Com o ruído da mudança no panorama político regional ainda a ecoar pelas ruas, emerge como pertinente o fenómeno dos movimentos de cidadãos, mais especificamente a sua relação com os partidos políticos. Parece-me indubitável – como aliás já tive oportunidade de escrever - que os partidos políticos continuam a ser indispensáveis para o processo democrático, enquanto mecanismos formais de representação e participação política. Por outro lado, a percepção generalizada de que os partidos são estruturas ineficazes, focadas em interesses próprios e incapazes de promover o desenvolvimento social e económico, impulsiona os movimentos de cidadãos, a substitutos naturais dos primeiros. Partidos ou cidadãos, a questão parece legítima. Como em tantos outros impasses, e após analisados os fundamentos, a resposta estará num compromisso. Partimos do pressuposto que a génese dos partidos políticos radica na representação dos seus militantes, maxime da população. Ora, a tendência para a cristalização das estruturas partidárias, decorrentes da natural procura pela conservação do poder e consequente aversão à renovação de quadros políticos, não parece talhada para representar a acelerada dinâmica de mudança da sociedade civil. É esta a dificuldade estrutural, responsável pelo crescente vácuo que separa partidos e cidadãos. Todavia, é nesta aparente incompatibilidade que reside a solução – a tão alvitrada abertura à sociedade civil. Se por um lado os cidadãos são responsáveis por tomar rédeas do seu destino, através da participação pública activa, é obrigação dos partidos identificar nesses movimentos um parceiro e não um adversário, passando a operar como estruturas de base aberta, acolhendo os estímulos da sociedade civil e procurando neles a linha mestra da sua renovação.

João Paulo Marques