Vem aí mais um pacote de austeridade com o Orçamento do Estado para 2014. O País continua a gastar mais do que produz, é preciso pagar a diferença e não há volta a dar: é ‘rapar’ onde ainda houver fundo. A Função Pública já vai para dois anos de sacrifícios, na privada começámos há muito mais tempo. Finalmente, porque nos está a chegar ao pêlo, parece que já começámos a nos consciencializar que vamos pagar sempre – tudo – a displicência e a excessiva tolerância com que ‘autorizamos’ os políticos a desbaratarem os recursos que são nossos. Não há fórmulas milagrosas para encarar esta dura realidade. Uma vez que não há como contornar a austeridade, aquilo que os contribuintes podem exigir, agora, é a garantia de que os roubos, a má gestão, o favorecimento descarado aos amigalhaços, os esquemas para assegurar chorudas avenças e remunerações no pós-governação, toda essa pouca vergonha tem de ser travada. Para isso é que se deveria fazer manifestações, com a violência que fosse necessária para assegurar a eficácia. No entanto, muitas das reacções que vejo e assisto diariamente, não transparecem aquilo que efectivamente deveria ser a nossa preocupação, enquanto pagadores dos desvios e má gestão. Pior: acho incrível que muitos dos causadores (activos e passivos) da actual situação se passeiem, diariamente, pelos jornais, rádios e TV’s, a mandar palpites e a criticar os actuais governantes. Rebusco apenas dois exemplos: a antiga ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, e o antigo Primeiro-Ministro e Presidente da República, Mário Soares. Dois políticos que permitiram de forma cúmplice e comprometedora, de forma directa ou indirecta, os maiores e mais corruptos esquemas que beneficiaram clientelas políticas e empresariais. A dívida colossal que temos para pagar começou por aí e desenvolveu-se depois com muitos outros protagonistas, de várias cores e credos políticos, mas com um incontornável ponto comum: a apetência para o ‘self-service’. Por isso, ler Mário Soares troçar que “estes actuais governantes não têm dignidade e alguns são puros delinquentes”, que serão “os que mais gosta Passos Coelho”, não é algo que se possa deixar passar de ânimo leve. Da mesma forma, ouvir a senhora Ferreira Leite, com aquele ar pesaroso como se alguma coisa lhe estivesse a custar, dizer que lhe parece que os actuais governantes “estão a andar em sentido contrário do que era aconselhável”, é algo perturbador. Não sabemos para onde vai Passos Coelho, nem os seus ministros. Mas uma coisa parece certa: se vão no sentido contrário ao de Manuela Ferreira Leite, de Mário Soares e outros ‘grandes gestores’ do nosso Portugal, então já estamos um pouco melhor.