O dia 29 de setembro de 2013, dia de Eleições Autárquicas em Portugal, ficará seguramente marcado, na história da nossa Democracia, como o dia do grande “trambolhão nacional” (do PSD) e do verdadeiro “temporal madeirense” (do PPD).
De facto, na Ilha da Madeira, depois de 38 anos, com 45 vitórias sucessivas, folgadas, esmagadoras (e “arrogantes”!) do Dr. Jardim e do seu PPD-Madeira, eis que, inesperadamente, ele mesmo, o seu partido e os seus fiéis seguidores são servidos com uma fria derrota de 8-4: o PPD segura quatro câmaras (Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta), o PS (sozinho, coligado ou apoiando outros) ganha seis câmaras (Funchal, Porto Santo, Porto Moniz, Machico, Santa Cruz e S. Vicente), e o CDS-PP fica com uma única câmara (a de Santana), isto para grande gáudio do Dr. Paulo Portas, o primeiro vencedor da noite, segundo ele próprio… Por curiosidade em relação ao movimento nacional de “Independentes” e também para que se perceba melhor o que se passou na Madeira, sublinhe-se que o novo Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente, José António Garcês, que ficou com quatro dos cinco mandatos camarários (numa maioria absoluta de 64,69% dos votos expressos), é um ex-militante do PPD-Madeira, mais um “engeitado” do totalitarismo jardinista, que concorreu como (pseudo)Independente e como (ex)Político partidário, mas que foi apoiado pelo PS-M e pelo CDS-PP regional.
No contexto de “um escândalo nacional” (que foi a abstenção), como lhe chamou Manuel Serrão (JN, 2/10/13, p. 16), talvez nem o nível elevadíssimo de não-votos, de votos brancos e de votos nulos (55% no total nacional) possa explicar o desastre pessoal e político em que se deixou enredar o Dr. Jardim. Uma grande maioria de madeirenses sempre confiou cegamente n’O Alberto João (tal como o povo madeirense o (re)conhecia), no seu partido e nos seus escolhidos. Por que razão, assim de repente, mais de 60% (7 câmaras em 11 são exatamente 63,64%) dos eleitores da Madeira não quiserem mais confiar os seus votos àqueles que concorriam com o apoio do PPD regional?
No próprio dia das eleições (29/09/13), o Dr. Jardim afirmava aos jornalistas que “Não votar é ‘entregar o ouro ao bandido’” (Público online, 29/09/13). Ora, foi precisamente isso que parece ter feito mais de metade dos votantes em Portugal: (não) quiseram dar do seu ouro aos “bandidos” (será que aqui estamos autorizados a ler “candidatos político-partidários”?). A verdade é que, de acordo com a lei do financiamento dos partidos, por cada voto expresso, por exemplo, nas legislativas de 2009, o partido votado recebia 3,15€, ou seja, 12,60€ de subsídio por voto em quatro anos (DN online, 14/05/2009). Ora, usando esse valor de referência, contando que não votaram 48% dos portugueses, assumindo que somos, aproximadamente, 10 milhões de votantes, isso significa que os 4,8 milhões de portugueses não-votantes vão permitir uma poupança, nos próximos quatro anos, de 60,5 milhões de euros! Obrigado, pois, a quem não votou…
Só que, na Madeira, as pessoas ouviram, olharam e viram que a era do Dr. Jardim já tinha chegado ao fim, resolvendo, de facto, não entregar mais “ouro” ao “bandido”; pelo contrário, optaram em consciência e decidiram não votar nos candidatos dele, optando maioritariamente por dar a vitória a candidaturas de “esquerda” e de “mudança”, a que alguns costumavam chamar “alternância democrática”, jamais conhecida nesta Ilha.
“Mudança” é, precisamente, o nome da coligação que, no Funchal, irá continuar o notável trabalho desenvolvido pelo Dr. Miguel Albuquerque, anterior Presidente da Câmara Municipal do Funchal, o mesmo que teve a coragem (ou a ousadia) de enfrentar o Dr. Jardim nas últimas eleições internas do PSD-Madeira, perdendo por uma margem muito curta, mas claramente assinalando assim “o início do fim do jardinismo”, expressão cunhada pelo BE da Madeira (Público online, 1/10/2013).
Mesmo que o PPD-PSD continue a ser o partido mais votado no Arquipélago da Madeira (com 35% de votos nestas autárquicas), sintomático é que Dr. Jardim tenha averbado o pior resultado de sempre dos sociais-democratas madeirenses e, embora reconhecendo esse desastre eleitoral, o atribua primeiro a uma causa externa (penalização pela política nacional do Governo) e só depois a uma causa interna (desconfiança em relação a um PPD regional em guerra, num claro processo de (auto)“destruição”).
Enfim, na visão do eterno Presidente do Governo Regional da Madeira, ele próprio não faz parte do problema; mas o povo madeirense também já não o vê como a solução. Idêntica crença tinha Luís Filipe Menezes, em quem a gente do Porto não acreditou. Ideia semelhante pairava na mente de Fernando Seara, que Lisboa não validou. Um dos poucos que percebeu o recado popular dos tempos mais recentes foi Mesquita Machado do PS, que deixou o terreno do jogo político, antes de ser derrotado pela coligação “Juntos por Braga” do PSD/CDS, a mesma que, após as eleições, reviu imediatamente o seu slogan para “Agora, todos juntos por Braga.”
Um bom político é aquele que percebe e antecipa os sinais do tempo. Ora, o Dr. Alberto João não quer perceber que agora é ele que faz parte de uma Madeira Velha. E já nem nos soa a grande notícia um título do Público online de 4/10/2013, que diz: “Miguel Albuquerque avança com projeto alternativo a Jardim”. Na verdade, depois de o Independente Paulo Vistas, candidato vencedor na Câmara Municipal de Oeiras, ter afirmado, na própria noite eleitoral, que é “um enorme privilégio e uma honra suceder àquele que foi considerado o melhor autarca do país” (Público online, 29/09/2013), já nada nos causa espanto... Se Isaltino Morais, “preso por branqueamento de capitais e fraude fiscal”, é o melhor autarca do país, então… Adeus! Em suma, todos nós temos uma visão das coisas, um estilo de vida, um tempo que é o nosso e, até, um prazo de validade como os iogurtes, com a pequena diferença de a nossa validade não estar marcada, mas existir de facto. Por isso, não se percebe como o Dr. Jardim nunca imaginou este fim.
António Carvalho da Silva