Não esqueço as mãos do tipógrafo que compõe o mundo Na Travessa das Capuchinhas, depois da curva ondulada a seguir à Capela das Almas Pobres, há um lugar raro quase escondido na rocha da travessa. Um afortunado que ali escapou a um atentado dedicou esta mínima capela às almas do purgatório. Na sua fachada acrescentou-se um azulejo a dizer “Alminhas”. Um pouco mais acima, outra porta, agora de uma oficina. Provavelmente nunca afixada neste discreto espaço, aquela que parece ser umas das primeiras tabuletas desta tipografia, em metal pintado de uma cor escura, talvez castanho, mostra-nos, gravado, um livro aberto, muito bem desenhado, com a capa claramente definida e o conjunto das folhas certeiramente divididas, meio livro para cada lado, em imaginadas três dimensões. No centro da gravura do livro impresso em superfície tão dura está escrito “Novo Mundo”, em maiúsculas, à largura e a todo o alto das duas páginas centrais. Tratar-se-á, porventura, de uma homenagem a Guttenberg, o engenheiro alemão que, no distante século XVI, aperfeiçoou a imprensa e o prelo e melhorou a tipografia, onde se encaixavam os tipos móveis? Talvez. Sobre o livro desenhado – por ele suportado – está, em forma elíptica – o desenho do globo terrestre, todos os mares e os seus continentes, e, acima dele, a acompanhar o arredondado do contorno do mundo, a palavra tipografia. Desço três breves escadas e, apesar de ser sábado, ouvem-se, em contínuo, todos os maquinismos a funcionar: rolos a fazer dançar papéis de diferentes cores para aterrarem em molhos onde se imprimem os ritmos da vida (quem parte, quem casa, quem nasce, histórias dos dias que passam, se perdem e ficam). Na tipografia Novo Mundo revi, no pulsar das veias e nos acordes do coração, um momento único da infância – estava eu na segunda classe (era assim que naquela altura se dizia). Era o fim dos anos 70. O dia da visita de estudo a uma tipografia de que não fixei o nome, de bibe aos quadrados a transbordar de desejo do inesperado, abriu-me um mundo novo. Na tipografia na Rua da Rosa, um senhor muito alto e vestido com um longo avental de couro juntava, letra a letra, em filas de chumbo escurecidas de tinta, os nomes de cada um de nós. As letras estavam guardadas em gavetas de madeira muito largas, divididas por quadrados e por ordem alfabética, com cada uma das mínimas peças com que se escreve o mundo. Com as mãos grandes, o tipógrafo abria as enormes gavetas, escolhia e ajustava, lado a lado, as letras que nos chamavam, um a um, pelo nome, completo. Foi preciso ter paciência e esperar que a barra de chumbo aquecesse e arrefecesse para as conseguirmos segurar. Assim estavam alinhados cada um dos tipos do nosso nome. Ainda hoje guardo a pesada linha com o meu enorme nome completo. Mas, sobretudo, não esqueço as mãos do tipógrafo que compõe o mundo. Diana Pimentel Docente universitária
Não esqueço as mãos do tipógrafo que compõe o mundo
Na Travessa das Capuchinhas, depois da curva ondulada a seguir à Capela das Almas Pobres, há um lugar raro quase escondido na rocha da travessa. Um afortunado que ali escapou a um atentado dedicou esta mínima capela às almas do purgatório. Na sua fachada acrescentou-se um azulejo a dizer “Alminhas”. Um pouco mais acima, outra porta, agora de uma oficina. Provavelmente nunca afixada neste discreto espaço, aquela que parece ser umas das primeiras tabuletas desta tipografia, em metal pintado de uma cor escura, talvez castanho, mostra-nos, gravado, um livro aberto, muito bem desenhado, com a capa claramente definida e o conjunto das folhas certeiramente divididas, meio livro para cada lado, em imaginadas três dimensões. No centro da gravura do livro impresso em superfície tão dura está escrito “Novo Mundo”, em maiúsculas, à largura e a todo o alto das duas páginas centrais. Tratar-se-á, porventura, de uma homenagem a Guttenberg, o engenheiro alemão que, no distante século XVI, aperfeiçoou a imprensa e o prelo e melhorou a tipografia, onde se encaixavam os tipos móveis? Talvez. Sobre o livro desenhado – por ele suportado – está, em forma elíptica – o desenho do globo terrestre, todos os mares e os seus continentes, e, acima dele, a acompanhar o arredondado do contorno do mundo, a palavra tipografia. Desço três breves escadas e, apesar de ser sábado, ouvem-se, em contínuo, todos os maquinismos a funcionar: rolos a fazer dançar papéis de diferentes cores para aterrarem em molhos onde se imprimem os ritmos da vida (quem parte, quem casa, quem nasce, histórias dos dias que passam, se perdem e ficam). Na tipografia Novo Mundo revi, no pulsar das veias e nos acordes do coração, um momento único da infância – estava eu na segunda classe (era assim que naquela altura se dizia). Era o fim dos anos 70. O dia da visita de estudo a uma tipografia de que não fixei o nome, de bibe aos quadrados a transbordar de desejo do inesperado, abriu-me um mundo novo. Na tipografia na Rua da Rosa, um senhor muito alto e vestido com um longo avental de couro juntava, letra a letra, em filas de chumbo escurecidas de tinta, os nomes de cada um de nós. As letras estavam guardadas em gavetas de madeira muito largas, divididas por quadrados e por ordem alfabética, com cada uma das mínimas peças com que se escreve o mundo. Com as mãos grandes, o tipógrafo abria as enormes gavetas, escolhia e ajustava, lado a lado, as letras que nos chamavam, um a um, pelo nome, completo. Foi preciso ter paciência e esperar que a barra de chumbo aquecesse e arrefecesse para as conseguirmos segurar. Assim estavam alinhados cada um dos tipos do nosso nome. Ainda hoje guardo a pesada linha com o meu enorme nome completo. Mas, sobretudo, não esqueço as mãos do tipógrafo que compõe o mundo.
Diana Pimentel Docente universitária