Jardim não conseguiu perceber que o poder encadeia quem o exerce, estimula as suas forças mas também obscurece a sua lucidez A máscara caiu definitivamente a Alberto João Jardim. De facto, o resultado destas eleições autárquicas, como aliás tinha previsto no meu último artigo neste jornal, só prova que não se pode enganar um povo durante muito tempo porque um dia, quando se verificar que os factos são contrários aos discursos e não correspondem às intenções que se apregoaram, o mesmo povo rejeitará as simulações. Foi este facto, o momento no tempo, em que as palavras e certas atitudes já não eram, só por si, suficientes e se exigiram resultados. Sem resultados o poder dá uma imagem de passividade, de ignorância das necessidades que o político que lidera tem o dever de satisfazer. Esta indiferença perante os sofrimentos leva o povo a um afrontamento e reage com desprezo, como se viu. Alberto João Jardim há muito que tinha perdido a liderança do partido e, consequentemente, a liderança na Região. A sua incapacidade de introduzir reformas, a mediocridade das pessoas que o acompanham no Governo Regional, o isolamento crescente que lhe foi criado por parte daqueles que com ele colaboraram e se cansaram das suas birras, das suas mentiras e ilusões foi determinante para este estado. Nada mais ridículo do que enganar e recorrer permanentemente a um lirismo. Mas as pessoas não se deixam enganar eternamente; acabam por descobrir a verdade e dispõem-se a deitar abaixo o poder que iludiu as suas expectativas. Alberto João Jardim tinha esquecido que para ter sucesso não podia estar encerrado no seu isolamento, no seu egoísmo, entregue a si mesmo. Nada pior do que uma pessoa enganar-se quanto ao sentido da História. O político tem de compreender a sua época, a evolução das ideias, o sentido dos acontecimentos e as respectivas consequências. A teimosia egoísta e narcísica levou Alberto João a negligenciar as opiniões e a demonstração de força do poder instituído. O grande risco sempre foi o de se fechar, de ser surdo e cego, de não entender e, por consequência, não ser compreendido e perder a partida. Este foi o momento no tempo para ele perceber que somos mais dependentes do outro do que pensamos ou do que desejamos. Debruçado apenas sobre si mesmo, o político arrisca-se a perder o sentido das realidades, a desprezar o poder e a força dos sentimentos que a sua pessoa, a sua maneira de ser e a sua acção suscitaram. Alberto João Jardim pertence ao grupo de políticos que duvidam de si próprios e da sua capacidade de se impor aos que o rodeiam. A sua obsessão é afastar personalidades com prestígio e eliminar aqueles cujo talento poderão fazer-lhe sombra. Mas esquece-se que procedendo assim fica mais pobre; é o sintoma de uma enfermidade de alma; mais grave, é um enfraquecimento e uma forma de multiplicar os partidários desiludidos e de os transformar em adversários. Ninguém sabe o que o futuro reserva: mais vale estar rodeado de pessoas fortes e capazes do que de cortesãos incompetentes e servis. De que serve fechar-se num gueto de medíocres muito fáceis de dominar mas impossíveis de utilizar? Alberto João Jardim mostrou ao longo de todos estes anos de governo que não é prisioneiro de sentimentos duradouros e não hesita esquecer os serviços prestados. Eu que o diga! Estamos no fim de um ciclo que vai obrigar o povo madeirense a opções claras e urgentes. Este foi o momento no tempo em que os madeirenses afirmaram a recusa da demagogia como primeiro progresso da moral na História. Falta construir um futuro onde os jogos do dinheiro, os ajustes de contas por vezes violentos, os complots, as calúnias, os compromissos mais variados, as mentiras, correspondem a outras tantas torpezas que urge abandonar. Alberto João Jardim não conseguiu perceber que o poder encadeia quem o exerce, estimula as suas forças mas também obscurece a sua lucidez. Foi o que aconteceu. Resta-lhe tomar consciência dos resultados e, perante eles, despojar-se das aparências enganosas e ter a inteligência e a vontade de saber tomar a decisão certa no momento certo. Este é o momento no tempo e por isso não pode deixar-se cegar; quando chegou ao poder tinha de saber que ele, contrariamente ao que imaginavam os bajuladores, não é o “senhor do tempo”- este (o tempo), terminou. Edgar Morin dizia muito a propósito: “O abandono de uma grande ilusão pode dar lugar ao nascimento de um grande projecto”. Acredito que sim… José A. Roque Martins
Jardim não conseguiu perceber que o poder encadeia quem o exerce, estimula as suas forças mas também obscurece a sua lucidez
A máscara caiu definitivamente a Alberto João Jardim. De facto, o resultado destas eleições autárquicas, como aliás tinha previsto no meu último artigo neste jornal, só prova que não se pode enganar um povo durante muito tempo porque um dia, quando se verificar que os factos são contrários aos discursos e não correspondem às intenções que se apregoaram, o mesmo povo rejeitará as simulações. Foi este facto, o momento no tempo, em que as palavras e certas atitudes já não eram, só por si, suficientes e se exigiram resultados. Sem resultados o poder dá uma imagem de passividade, de ignorância das necessidades que o político que lidera tem o dever de satisfazer. Esta indiferença perante os sofrimentos leva o povo a um afrontamento e reage com desprezo, como se viu. Alberto João Jardim há muito que tinha perdido a liderança do partido e, consequentemente, a liderança na Região. A sua incapacidade de introduzir reformas, a mediocridade das pessoas que o acompanham no Governo Regional, o isolamento crescente que lhe foi criado por parte daqueles que com ele colaboraram e se cansaram das suas birras, das suas mentiras e ilusões foi determinante para este estado. Nada mais ridículo do que enganar e recorrer permanentemente a um lirismo. Mas as pessoas não se deixam enganar eternamente; acabam por descobrir a verdade e dispõem-se a deitar abaixo o poder que iludiu as suas expectativas. Alberto João Jardim tinha esquecido que para ter sucesso não podia estar encerrado no seu isolamento, no seu egoísmo, entregue a si mesmo. Nada pior do que uma pessoa enganar-se quanto ao sentido da História. O político tem de compreender a sua época, a evolução das ideias, o sentido dos acontecimentos e as respectivas consequências. A teimosia egoísta e narcísica levou Alberto João a negligenciar as opiniões e a demonstração de força do poder instituído. O grande risco sempre foi o de se fechar, de ser surdo e cego, de não entender e, por consequência, não ser compreendido e perder a partida. Este foi o momento no tempo para ele perceber que somos mais dependentes do outro do que pensamos ou do que desejamos. Debruçado apenas sobre si mesmo, o político arrisca-se a perder o sentido das realidades, a desprezar o poder e a força dos sentimentos que a sua pessoa, a sua maneira de ser e a sua acção suscitaram. Alberto João Jardim pertence ao grupo de políticos que duvidam de si próprios e da sua capacidade de se impor aos que o rodeiam. A sua obsessão é afastar personalidades com prestígio e eliminar aqueles cujo talento poderão fazer-lhe sombra. Mas esquece-se que procedendo assim fica mais pobre; é o sintoma de uma enfermidade de alma; mais grave, é um enfraquecimento e uma forma de multiplicar os partidários desiludidos e de os transformar em adversários. Ninguém sabe o que o futuro reserva: mais vale estar rodeado de pessoas fortes e capazes do que de cortesãos incompetentes e servis. De que serve fechar-se num gueto de medíocres muito fáceis de dominar mas impossíveis de utilizar? Alberto João Jardim mostrou ao longo de todos estes anos de governo que não é prisioneiro de sentimentos duradouros e não hesita esquecer os serviços prestados. Eu que o diga! Estamos no fim de um ciclo que vai obrigar o povo madeirense a opções claras e urgentes. Este foi o momento no tempo em que os madeirenses afirmaram a recusa da demagogia como primeiro progresso da moral na História. Falta construir um futuro onde os jogos do dinheiro, os ajustes de contas por vezes violentos, os complots, as calúnias, os compromissos mais variados, as mentiras, correspondem a outras tantas torpezas que urge abandonar. Alberto João Jardim não conseguiu perceber que o poder encadeia quem o exerce, estimula as suas forças mas também obscurece a sua lucidez. Foi o que aconteceu. Resta-lhe tomar consciência dos resultados e, perante eles, despojar-se das aparências enganosas e ter a inteligência e a vontade de saber tomar a decisão certa no momento certo. Este é o momento no tempo e por isso não pode deixar-se cegar; quando chegou ao poder tinha de saber que ele, contrariamente ao que imaginavam os bajuladores, não é o “senhor do tempo”- este (o tempo), terminou. Edgar Morin dizia muito a propósito: “O abandono de uma grande ilusão pode dar lugar ao nascimento de um grande projecto”. Acredito que sim…
José A. Roque Martins