Equipa que perde por 7-4 joga sempre as culpas no guarda-redes O homem talvez não saiba ainda que vai só; ninguém o segue por cima do ombro, como se seguem os ídolos; apenas passam por ele como se passa por ninguém. Não vê que lhe viraram a cara porque esconde os olhos no fundo do chão. Já sofrera um ou dois golos; excecionalmente três, numa tarde mais ou menos ingrata muito por culpa do auxiliar que não apontou o fora de jogo ao árbitro. Tantos, é que nunca. Era um guarda-redes habituado a pouco protagonismo; aos serviços mínimos para apanhar uma bola morta, porque a defesa de betão não permitia que crescessem avançados à volta. Com o jogo controlado sem discussão, de cima para baixo, num triângulo invertido, a posse de bola andava, em média, acima dos 55%. O recorde, com quase quarenta anos e que, por muitas gerações vai continuar de pé, era só de 66,64%. Era o tempo em que o adversário, mesmo que fosse ao mercado de inverno, nem cheirava a «redondinha». A equipa era impermeável e imune aos maus resultados, fazendo gala de nunca ter admitido, nos seus estatutos, o recurso às chicotadas psicológicas. Treinador que nunca perde é para toda a vida. Praticamente sem lesões graves, como do ligamento cruzado anterior ou luxação do tornozelo, a chave mestra, que não é bem a chave-inglesa, rodava, bem oleada, sobre automatismos. Era uma laranja mecânica, que em nada se assemelhava ao filme de Stanley Kubrick, mas se identificava, quanto ao método e ao sistema, ao carrossel holandês de Rinus Michels com Johaan Cruyff. Todos iam buzinando, acenando uns aos outros, numa roda de cavalinhos. Um encontrão e um pedido de desculpas, entre dentes, fizeram-no regressar à angústia que a bola provoca ao embrulhar-se na malha da baliza. Equipa que perde por 7-4 joga sempre as culpas no guarda-redes. Juvenal Xavier Jornalista

Equipa que perde por 7-4 joga sempre as culpas no guarda-redes

O homem talvez não saiba ainda que vai só; ninguém o segue por cima do ombro, como se seguem os ídolos; apenas passam por ele como se passa por ninguém. Não vê que lhe viraram a cara porque esconde os olhos no fundo do chão. Já sofrera um ou dois golos; excecionalmente três, numa tarde mais ou menos ingrata muito por culpa do auxiliar que não apontou o fora de jogo ao árbitro. Tantos, é que nunca. Era um guarda-redes habituado a pouco protagonismo; aos serviços mínimos para apanhar uma bola morta, porque a defesa de betão não permitia que crescessem avançados à volta. Com o jogo controlado sem discussão, de cima para baixo, num triângulo invertido, a posse de bola andava, em média, acima dos 55%. O recorde, com quase quarenta anos e que, por muitas gerações vai continuar de pé, era só de 66,64%. Era o tempo em que o adversário, mesmo que fosse ao mercado de inverno, nem cheirava a «redondinha». A equipa era impermeável e imune aos maus resultados, fazendo gala de nunca ter admitido, nos seus estatutos, o recurso às chicotadas psicológicas. Treinador que nunca perde é para toda a vida. Praticamente sem lesões graves, como do ligamento cruzado anterior ou luxação do tornozelo, a chave mestra, que não é bem a chave-inglesa, rodava, bem oleada, sobre automatismos. Era uma laranja mecânica, que em nada se assemelhava ao filme de Stanley Kubrick, mas se identificava, quanto ao método e ao sistema, ao carrossel holandês de Rinus Michels com Johaan Cruyff. Todos iam buzinando, acenando uns aos outros, numa roda de cavalinhos. Um encontrão e um pedido de desculpas, entre dentes, fizeram-no regressar à angústia que a bola provoca ao embrulhar-se na malha da baliza. Equipa que perde por 7-4 joga sempre as culpas no guarda-redes.

Juvenal Xavier Jornalista