Acontece com todos. Depois dos encantos da infância, vem a adolescência durante algum tempo acompanhada de uma certa petulância mandona, cheia de vazios e de certezas ocas, manifestadas em voz alta e estridente, ao estilo da série ‘Morangos com Açúcar’.

É assim, nesse estado de crescimento desengonçado que se apresenta a vida política na Madeira. Um crescimento que passou da infância para a adolescência de 29 para 30 de Setembro e que não se sabe como vai seguir. Para já, assistimos ao inverso daquilo a que estávamos habituados. O encolher de ombros, os olhos no chão, as mãos nos bolsos e a resignação deram lugar a um estranho esbracejar. Não tanto do povo, que continua a resmungar baixinho, mas da parte dos actores políticos, sobretudo os da maioria. De um dia para outro, parece que não há mais amanhã, que lhes falta o chão, que é preciso correr até recuperar o tempo perdido. E o frenesim é tanto que a coragem que Miguel Albuquerque teve o ano passado, quando decidiu enfrentar o líder, parece ter contagiado de forma quase banal grande parte do partido. O caso mais estranho foi esta semana protagonizado por José Pedro Pereira. O jovem deputado que passou a independente age como se tivesse rasgado a ‘carta de chamada’, a procuração, a herança do velho líder. De forma surpreendente, responde a um assombro de seriedade e desembaraça-se dos outros, dos que o deixaram chegar onde chegou, dos que lhe achavam piada. Eleva a voz, ainda estridente, mostra alguma petulância mandona e reage como um adolescente vazio de ideologia mas de bolsos cheios pelo ‘jackpot’. O episódio tem o seu lado de interessante, diverte os opositores, é garantia de comentários a rodos. Mas pode ser mais do que isso. Enquanto dentro do partido da maioria, e sobretudo fora dela, se nota um evidente contentamento, talvez fosse útil alguém questionar, pensar um pouco mais sobre a razão deste rombo na maioria social-democrata. E que efeitos terá num futuro próximo. É verdade que vivemos um tempo estranho, que a falta de alternância resultou numa mudança significativa, que o silêncio deu lugar a uma certa dialética reivindicativa, que a afronta rompeu espaço entre quem sempre mandou. Resta saber se tudo isso será apenas ingenuidade, pequena vingança, ou mais um número de política com maus actores que desempenham papéis de sucesso numa série que bem se poderia chamar “Laranjas com Açúcar” e passar ao fim da tarde na TVI. Audiência não lhe faltaria.