A Madeira funciona como um autêntico ‘copo misturador’ a meio do Atlântico Foi com grande interesse que verifiquei, com a publicação da Portaria n.º 93/2013, de 23 de Setembro, no JORAM, 1.ª série, n.º 131, a repartição dos encargos orçamentais de uma adjudicação no valor de 220 mil euros, para efetuar um estudo sobre as ‘vulnerabilidades e respostas para as alterações climáticas no Arquipélago da Madeira’. Sem dúvida uma iniciativa corajosa em tempos difíceis! Coincidentemente (ou não), o IPCC-Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas, coordenado pelas Nações Unidas (ONU), publicou recentemente um relatório que salientava o papel dos oceanos na absorção de calor, protegendo assim a Humanidade de um aumento excessivo da temperatura global. Um aumento das temperaturas globais de 2ºC pode ser devastador para zonas com temperaturas extremas, como é o caso do nosso ‘vizinho’ Deserto do Sahara. No entanto, enquanto a atmosfera está preparada para absorver somente 2% do excesso de calor, os oceanos podem absorver até 90% desse montante, um autêntico moderador no suporte de vida no Planeta. Infelizmente, continua a existir uma profunda ignorância sobre o papel dos oceanos no clima do Planeta, que parece ter sido enfatizado neste último relatório do IPCC. Muito do conhecimento científico sobre o papel dos oceanos no clima continua a ser ignorado pelo público e pelos decisores políticos. O último estudo sobre os impactos das alterações climáticas na RAM (SIAM-II), que tive oportunidade de ler, pouco ou nada tinha sobre o papel do oceano Atlântico. Os modelos utilizados para efetuar as previsões de 100 anos (HadCM3 e CIELO), que serviram de base para toda a análise de impactos no turismo, na fauna e flora terrestre, na agricultura etc, só tinham em consideração a superfície do oceano. No entanto, estudos científicos sugerem que as camadas de água profundas (+2000m), assim como as de águas intermédias (800-1200m), têm um papel fundamental no sequestro de Dióxido de Carbono, assim como no armazenamento e transporte de sal e calor. A Madeira funciona como um autêntico ‘copo misturador’ a meio do Atlântico, ou seja, as montanhas promovem fenómenos de intensa interação entre a atmosfera e o oceano circundante. Estes fenómenos locais não foram considerados nos estudos sobre clima da RAM até agora publicados. Julgo ser importante averiguar novos factos neste estudo, tais como: i) qual o papel dos fenómenos locais? ii) qual o impacto do clima nos recursos marinhos? Os estudos pioneiros deveriam evoluir para além da avaliação dos possíveis impactos das mudanças climáticas numa ‘Região insular vulnerável’, assumindo um papel de ‘zona de monitorização climática estratégica da Europa’. Se por um lado, o turismo contribui com uma maior parcela para a economia regional, por outro, sem mar limpo e peixe fresco julgo que perderemos muitos dos nossos turistas. A nossa área terrestre é uma pequena fracção da nossa ampla área marítima. Até quando vamos ignorar este facto? Rui Caldeira Investigador

A Madeira funciona como um autêntico ‘copo misturador’ a meio do Atlântico

Foi com grande interesse que verifiquei, com a publicação da Portaria n.º 93/2013, de 23 de Setembro, no JORAM, 1.ª série, n.º 131, a repartição dos encargos orçamentais de uma adjudicação no valor de 220 mil euros, para efetuar um estudo sobre as ‘vulnerabilidades e respostas para as alterações climáticas no Arquipélago da Madeira’. Sem dúvida uma iniciativa corajosa em tempos difíceis! Coincidentemente (ou não), o IPCC-Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas, coordenado pelas Nações Unidas (ONU), publicou recentemente um relatório que salientava o papel dos oceanos na absorção de calor, protegendo assim a Humanidade de um aumento excessivo da temperatura global. Um aumento das temperaturas globais de 2ºC pode ser devastador para zonas com temperaturas extremas, como é o caso do nosso ‘vizinho’ Deserto do Sahara. No entanto, enquanto a atmosfera está preparada para absorver somente 2% do excesso de calor, os oceanos podem absorver até 90% desse montante, um autêntico moderador no suporte de vida no Planeta. Infelizmente, continua a existir uma profunda ignorância sobre o papel dos oceanos no clima do Planeta, que parece ter sido enfatizado neste último relatório do IPCC. Muito do conhecimento científico sobre o papel dos oceanos no clima continua a ser ignorado pelo público e pelos decisores políticos. O último estudo sobre os impactos das alterações climáticas na RAM (SIAM-II), que tive oportunidade de ler, pouco ou nada tinha sobre o papel do oceano Atlântico. Os modelos utilizados para efetuar as previsões de 100 anos (HadCM3 e CIELO), que serviram de base para toda a análise de impactos no turismo, na fauna e flora terrestre, na agricultura etc, só tinham em consideração a superfície do oceano. No entanto, estudos científicos sugerem que as camadas de água profundas (+2000m), assim como as de águas intermédias (800-1200m), têm um papel fundamental no sequestro de Dióxido de Carbono, assim como no armazenamento e transporte de sal e calor. A Madeira funciona como um autêntico ‘copo misturador’ a meio do Atlântico, ou seja, as montanhas promovem fenómenos de intensa interação entre a atmosfera e o oceano circundante. Estes fenómenos locais não foram considerados nos estudos sobre clima da RAM até agora publicados. Julgo ser importante averiguar novos factos neste estudo, tais como: i) qual o papel dos fenómenos locais? ii) qual o impacto do clima nos recursos marinhos? Os estudos pioneiros deveriam evoluir para além da avaliação dos possíveis impactos das mudanças climáticas numa ‘Região insular vulnerável’, assumindo um papel de ‘zona de monitorização climática estratégica da Europa’. Se por um lado, o turismo contribui com uma maior parcela para a economia regional, por outro, sem mar limpo e peixe fresco julgo que perderemos muitos dos nossos turistas. A nossa área terrestre é uma pequena fracção da nossa ampla área marítima. Até quando vamos ignorar este facto?

Rui Caldeira Investigador