O mundo mudou e continua a mudar, tal como tem acontecido ao longo dos tempos. Só que hoje isso acontece a uma velocidade vertiginosa, obrigando a adaptações constantes aos mais diferentes níveis e âmbitos de intervenção. Contudo, instituições com obrigações formativas (escolas, universidades, clubes…) continuam, na esmagadora maioria dos casos, a preparar para o passado. Estão enleadas em teias burocrático-administrativas inibidoras e castradoras… impostas por decisores (?), ou melhor, por burocratas que se julgam iluminados por uma espécie de mandato divino, com ideias feitas e “crenças saudosistas”, onde a transmissão do conhecimento, a memorização e a repetição acéfala de padrões pré-estabelecidos e estereótipos assumem um papel central. Desenvolver o espírito crítico, a curiosidade e a pesquisa, a capacidade de adaptação a diferentes contextos, a tomada de decisão, etc. parece não ser uma preocupação, ou melhor só é uma preocupação ao “nível legislativo”. Veja-se por exemplo o tipo de avaliação que generalizadamente é feito na escola e na universidade, como são seriados os candidatos ao ensino superior, como é feita a seleção e progressão na carreira dos professores (da “pré-primária à universidade”) … Culpar apenas quem está ao nível das macro decisões, pelas disfuncionalidades existentes, não só é simplista como perigoso. Em Nuremberga muitos foram condenados à morte apesar de dizerem que apenas cumpriam ordens. Cada um, independentemente do nível em que estiver na “cadeia de decisão”, do processo pedagógico (seja, por exemplo, na família, na escola ou no clube), tem margem de manobra para modificar alguma coisa. O Desporto, pelos princípios ativos que possui, pelos comportamentos que solicita, pela imprevisibilidade inerente ao comportamento dos desportistas, pela relevância social que tem, pode assumir-se como um polo dinamizador da rotura com um processo pedagógico que não aguenta mais remendos. Assim o saibamos e queiramos utilizar de forma adequada… Mas queremos mesmo? E somos capazes de nos divertir a fazê-lo? Ou preferimos viver (?), como pobres diabos sem vida própria, através dos golos do Ronaldo e dos discursos do Jesus (o do Benfica)?

Hélder Lopes Professor universitário