A Rua do Ribeirinho é uma espécie de “twilight zone” do Funchal Se há ruas que fazem algum jus ao nome que ostentam, a do Ribeirinho de Baixo é uma delas. Não porque nela corra um ribeiro ou sequer um riacho, nada disso, mas porque lá proliferam garotos do calhau que, como sabemos, nós, falantes de regionalismos, são do calhau por parecerem ter crescido à beira da ribeira, soltos, sem regras e muito menos sem qualquer tipo de educação e/ou boas maneiras. Na verdade, quem passeia pela Rua do Ribeirinho está sujeito a todo o tipo de insultos e destratos dignos do campo lexical deste topónimo, cujo valor diminutivo, aparentemente pueril, contrasta com a rudeza de alguns dos taxistas que lá exercem ou, melhor, envergonham a profissão, e de alguns proprietários de “tascas”, deixemos de parte os eufemismos desmerecidos, que mais valia estarem a partir calhau, lá vem o calhau outra vez, do que a atender pessoas mesmo que em estado de embriaguez. E digo isto porque o arruamento em causa, ponto de passagem quase obrigatório para quem trabalha entre as ruas João de Deus, do Carmo e Dr. Fernão de Ornelas, já me fez assistir, e sobretudo, participar nas cenas mais mirabolantes que, nos últimos 20 anos, o Funchal me tem propiciado, a mim e aos jovens estudantes que por ela circulam. Um deles teve lugar há algum tempo, quando, por gentil sugestão de uma funcionária da Academia de Línguas da Madeira, um oásis no meio daquela ribeira, quis trocar no bar vizinho as dezenas de cêntimos que ela me dera por falta de melhor troco. Entrei no estabelecimento, obscuro por sinal, e pedi gentilmente a troca ao proprietário. Ele anuiu com um rosnar, contou a avalanche de moedas e concluiu que faltava um cêntimo. Admirei-me, pois há menos de três minutos o dinheiro estava certo. Com o melhor dos meus sorrisos, perguntei ao meu interlocutor se não se teria enganado na contagem. Mal sabia eu, coitada, que tinha aberto a caixa de Pandora. Num ápice, uma fera surgiu ante os meus olhos, tratando-me por tu e vociferando, sem qualquer pejo, os mais rebuscados vitupérios que fariam corar até um trolha. Fiquei estarrecida, em lágrimas, humilhada publicamente e, por isso, quando mais tarde pedi sem sucesso a um familiar que fosse registar o sucedido no Livro de Reclamações do estabelecimento, jurei a mim própria que nunca mais passaria pelo dito cujo. E assim o tenho feito, como se o lado esquerdo de quem desce a Rua do Ribeirinho acabasse na academia. Tenho-o feito, mas a precaução mostrou não ser o suficiente para evitar novos flagrantes de Terceiro Mundo. Constatei-o, com efeito, no final do ano letivo transato, altura em que tive a oportunidade de assistir a uma cena entre dois taxistas da praça ribeirinha digna do melhor espetáculo televisivo de luta livre. Um com um terço da idade do outro. Um jovem contra um homem que tinha idade para ser o seu avô. Ambos, dois selvagens que se travavam de razões, quais touros enraivecidos, por um lugar para o respetivo táxi. Ele foi pontapés, ele foi camisas rasgadas, ele foi sangue a respingar, ele foi vidros partidos e carros batidos, ele foi os mais variados impropérios, tudo à vista dos alunos que entravam na academia, alguns deles da cor da cal com medo da violência gratuita e desproporcional que irrompia do nada. Eu, por mim, fiquei tão estupefacta como indignada com a situação que me obrigava a tentar acalmar uma criança que, tomada do nervosismo, tremia como varas verdes perante a pancadaria que corria do outro lado da rua. E como não há duas sem três, há menos de duas semanas voltei a ser presenteada com mais um episódio à moda da Rua do Ribeirinho que me levou a esta reflexão. Estava eu à espera de uma boleia em hora de ponta, quando um taxista, circulando na Rua do Carmo, fez questão de parar junto a uma passadeira improvisada no local por causa de uma obra megalómana que se arrasta há anos na esquina. Apitou para chamar a minha atenção – eu estava à distância de cerca de um metro do zebrado, perdida em pensamentos – e fez-me sinal para eu passar. Numa atitude cordial, acenei-lhe, agradecendo o cuidado e fazendo-lhe sinal de que não iria passar. Afinal, eu nem estava no passeio da malfadada passadeira. Ele, metamorfoseando-se numa besta, insistiu para que passasse, pois, em seu entender, estava nas imediações de uma passadeira e tinha de atravessá-la, custasse o que custasse. Eu, surpreendida com a insistência, voltei a gesticular um sinal negativo, medindo a mais do que óbvia distância entre ambas as localizações, a da passadeira e a minha. E nada mais bastou para que o condutor de bigode farfalhudo me mandasse, com voz que ecoou até à Rua Dr. Fernão Ornelas e num português bem vernáculo, para aquele lugar que distingue o sexo masculino do feminino. Eu, senhora de berço, incapaz de brejeirices, fiquei da cor da romã enquanto outros transeuntes olhavam para mim com ar inquisidor enquanto eu fingia, em vão, que não era nada comigo. O taxista, esse já estava estacionado na praça da Rua do Ribeirinho à gargalhada com os colegas como se nada tivesse acontecido. A Rua do Ribeirinho é, assim, uma espécie de “twilight zone” do Funchal. Um submundo que, salvo honrosas exceções, parece entregue a garotos do calhau que, sem eira nem beira, instauraram a lei da selva, ofendendo cidadãos de bem que por lá passam. Não gosto de generalizações, mas o certo é que é preciso evitá-las. E isso compete à PSP –que na alturam e demoveu de apresentar queixa contra o taberneiro por “não valer a pena” – e a associações profissionais e industriais, cuja voz apenas se faz ouvir para defender a classe. É preciso honrar a camisola que se veste e saber educar quem não tem educação. É esse o exemplo que devemos dar aos mais jovens mesmo em tempo de crise. Correm ventos de mudança na Madeira. Inspiremo-nos neles e coloquemos ordem no convento. Eu, por mim, assumo a mudança na primeira pessoa, jurando a mim própria que nunca mais haverá quem me destrate em praça pública sem que eu tome medidas, profícuas ou não, junto das instâncias próprias para denunciar a situação. Porque quem cala, consente. E eu simplesmente não consinto deixar ao meu filho uma cidade de garotos do calhau, cuja rudeza e boçalidade põem em causa o orgulho do ser madeirense pós 25 de Abril. Eker Sommer

A Rua do Ribeirinho é uma espécie de “twilight zone” do Funchal

Se há ruas que fazem algum jus ao nome que ostentam, a do Ribeirinho de Baixo é uma delas. Não porque nela corra um ribeiro ou sequer um riacho, nada disso, mas porque lá proliferam garotos do calhau que, como sabemos, nós, falantes de regionalismos, são do calhau por parecerem ter crescido à beira da ribeira, soltos, sem regras e muito menos sem qualquer tipo de educação e/ou boas maneiras. Na verdade, quem passeia pela Rua do Ribeirinho está sujeito a todo o tipo de insultos e destratos dignos do campo lexical deste topónimo, cujo valor diminutivo, aparentemente pueril, contrasta com a rudeza de alguns dos taxistas que lá exercem ou, melhor, envergonham a profissão, e de alguns proprietários de “tascas”, deixemos de parte os eufemismos desmerecidos, que mais valia estarem a partir calhau, lá vem o calhau outra vez, do que a atender pessoas mesmo que em estado de embriaguez. E digo isto porque o arruamento em causa, ponto de passagem quase obrigatório para quem trabalha entre as ruas João de Deus, do Carmo e Dr. Fernão de Ornelas, já me fez assistir, e sobretudo, participar nas cenas mais mirabolantes que, nos últimos 20 anos, o Funchal me tem propiciado, a mim e aos jovens estudantes que por ela circulam. Um deles teve lugar há algum tempo, quando, por gentil sugestão de uma funcionária da Academia de Línguas da Madeira, um oásis no meio daquela ribeira, quis trocar no bar vizinho as dezenas de cêntimos que ela me dera por falta de melhor troco. Entrei no estabelecimento, obscuro por sinal, e pedi gentilmente a troca ao proprietário. Ele anuiu com um rosnar, contou a avalanche de moedas e concluiu que faltava um cêntimo. Admirei-me, pois há menos de três minutos o dinheiro estava certo. Com o melhor dos meus sorrisos, perguntei ao meu interlocutor se não se teria enganado na contagem. Mal sabia eu, coitada, que tinha aberto a caixa de Pandora. Num ápice, uma fera surgiu ante os meus olhos, tratando-me por tu e vociferando, sem qualquer pejo, os mais rebuscados vitupérios que fariam corar até um trolha. Fiquei estarrecida, em lágrimas, humilhada publicamente e, por isso, quando mais tarde pedi sem sucesso a um familiar que fosse registar o sucedido no Livro de Reclamações do estabelecimento, jurei a mim própria que nunca mais passaria pelo dito cujo. E assim o tenho feito, como se o lado esquerdo de quem desce a Rua do Ribeirinho acabasse na academia. Tenho-o feito, mas a precaução mostrou não ser o suficiente para evitar novos flagrantes de Terceiro Mundo. Constatei-o, com efeito, no final do ano letivo transato, altura em que tive a oportunidade de assistir a uma cena entre dois taxistas da praça ribeirinha digna do melhor espetáculo televisivo de luta livre. Um com um terço da idade do outro. Um jovem contra um homem que tinha idade para ser o seu avô. Ambos, dois selvagens que se travavam de razões, quais touros enraivecidos, por um lugar para o respetivo táxi. Ele foi pontapés, ele foi camisas rasgadas, ele foi sangue a respingar, ele foi vidros partidos e carros batidos, ele foi os mais variados impropérios, tudo à vista dos alunos que entravam na academia, alguns deles da cor da cal com medo da violência gratuita e desproporcional que irrompia do nada. Eu, por mim, fiquei tão estupefacta como indignada com a situação que me obrigava a tentar acalmar uma criança que, tomada do nervosismo, tremia como varas verdes perante a pancadaria que corria do outro lado da rua. E como não há duas sem três, há menos de duas semanas voltei a ser presenteada com mais um episódio à moda da Rua do Ribeirinho que me levou a esta reflexão. Estava eu à espera de uma boleia em hora de ponta, quando um taxista, circulando na Rua do Carmo, fez questão de parar junto a uma passadeira improvisada no local por causa de uma obra megalómana que se arrasta há anos na esquina. Apitou para chamar a minha atenção – eu estava à distância de cerca de um metro do zebrado, perdida em pensamentos – e fez-me sinal para eu passar. Numa atitude cordial, acenei-lhe, agradecendo o cuidado e fazendo-lhe sinal de que não iria passar. Afinal, eu nem estava no passeio da malfadada passadeira. Ele, metamorfoseando-se numa besta, insistiu para que passasse, pois, em seu entender, estava nas imediações de uma passadeira e tinha de atravessá-la, custasse o que custasse. Eu, surpreendida com a insistência, voltei a gesticular um sinal negativo, medindo a mais do que óbvia distância entre ambas as localizações, a da passadeira e a minha. E nada mais bastou para que o condutor de bigode farfalhudo me mandasse, com voz que ecoou até à Rua Dr. Fernão Ornelas e num português bem vernáculo, para aquele lugar que distingue o sexo masculino do feminino. Eu, senhora de berço, incapaz de brejeirices, fiquei da cor da romã enquanto outros transeuntes olhavam para mim com ar inquisidor enquanto eu fingia, em vão, que não era nada comigo. O taxista, esse já estava estacionado na praça da Rua do Ribeirinho à gargalhada com os colegas como se nada tivesse acontecido. A Rua do Ribeirinho é, assim, uma espécie de “twilight zone” do Funchal. Um submundo que, salvo honrosas exceções, parece entregue a garotos do calhau que, sem eira nem beira, instauraram a lei da selva, ofendendo cidadãos de bem que por lá passam. Não gosto de generalizações, mas o certo é que é preciso evitá-las. E isso compete à PSP –que na alturam e demoveu de apresentar queixa contra o taberneiro por “não valer a pena” – e a associações profissionais e industriais, cuja voz apenas se faz ouvir para defender a classe. É preciso honrar a camisola que se veste e saber educar quem não tem educação. É esse o exemplo que devemos dar aos mais jovens mesmo em tempo de crise. Correm ventos de mudança na Madeira. Inspiremo-nos neles e coloquemos ordem no convento. Eu, por mim, assumo a mudança na primeira pessoa, jurando a mim própria que nunca mais haverá quem me destrate em praça pública sem que eu tome medidas, profícuas ou não, junto das instâncias próprias para denunciar a situação. Porque quem cala, consente. E eu simplesmente não consinto deixar ao meu filho uma cidade de garotos do calhau, cuja rudeza e boçalidade põem em causa o orgulho do ser madeirense pós 25 de Abril.

Eker Sommer