Parece que foi ontem, mas é neste mês de Janeiro que se completa uma década de colaboração regular com o Diário, quando o caríssimo Agostinho Silva teve a peregrina ideia de me convidar a escrever opinião, na sequência duma série de cartas de leitor sobre o tema do "Selvagem Superior", espécie endémica que identifiquei e que continuou a proliferar e a multiplicar-se até aos dias de hoje. Os finais e inícios de ano são sempre muito propícios a balanços e projecções, mas hão-de perdoar-me os caros leitores que, a título excepcional, dedique um artigo a divagar um pouco sobre este tema - a minha pessoa é certamente o assunto menos interessante para uma crónica, mas queiram obsequiar-me com a vossa indulgência, pelo menos desta vez… Para começar, um aviso à navegação, principalmente a dois tipos de leitores: aqueles que me estão a ler pela primeira vez (e todos os meses há alguém que refere, surpreendido - "Não sabia que escrevias no Diário!" - o que é excelente para manter a auto-estima em níveis aceitáveis), e que naturalmente vão estranhar o tom aparentemente "auto-masturbatório" (parafraseando AJJ); e aqueles que fazem questão de ler os meus artigos pelo prazer de contestar e criticar, ofender e até difamar. Como normalmente o alvo dos ataques sou eu e não aquilo que escrevo, eis uma oportunidade imperdível de assestar baterias no "escriba fascista", ou no "escrevinhador tachista", ou no "rapazito das piadolas", ou qualquer outro dos inúmeros e inspirados epítetos com que me brindaram ao longo dos anos. Fartai, vilanagem! Também é para vós que preencho uma página por mês. Depois há os leitores que fazem o especial favor de apreciar os meus humildes exercícios de cidadania, e que fazem questão de o afirmar e reiterar, que me ligam a elogiar, me enviam mensagens ou e-mails a felicitar, a quem dedico estas linhas e agradeço a fidelidade. A começar pelo meu pai, desde a primeira hora incondicional admirador e implacável crítico, a quem devo o gosto pela leitura e pela escrita, e a quem espero um dia poder dedicar um livro. Desde esse já longínquo ano de 2003, orgulho-me de ter mantido sempre os mesmos princípios, regendo-me por critérios que nem sempre são fáceis de cumprir: pensar pela minha cabeça, assumindo as minhas ideias e convicções; evitar a banalidade e o discurso rasteiro; defender intransigentemente a minha terra, de inimigos internos e externos, independentemente da sua (e da minha) cor politica; não aceitar encomendas nem fazer favores, nem vergar-me às conveniências de ninguém; e o mais difícil - usar uma escrita cuidada, fazendo pensar sem ser hermético, e dando o melhor uso possível à ironia e ao sentido de humor. Algumas vezes terei falhado, outras nem tanto, mas o balanço só pode ser positivo, caso contrário há muito o Diário me teria mandado pregar noutra freguesia… Mas nada é eterno, e no dia em que me ache enfadonho, desinteressante ou redundante, serei eu o primeiro a pôr um ponto final na relação. Enquanto esse dia não chegar, continuarei empenhado em contribuir para um melhor Diário e para uma melhor Madeira, e a fazer o meu modesto trabalho de formiga, na defesa duma maior participação dos cidadãos na sociedade, na promoção da solidariedade, na melhoria das condições de vida dos meus conterrâneos, na luta contra a injustiça e a desigualdade - e continuarei a fazê-lo neste e noutros palcos, sempre de forma clara e transparente. Mais uma vez desculpo-me pelo tema inusitado, prometo que só o voltarei a fazer em 2023. Até lá, ou até quando calhar, caras amigas e caros amigos, obrigado por tudo, até ao mês que vem.
Raul Ribeiro