António Cartaxo Muitos de nós, portugueses, arrastados pelo contexto familiar dos nossos pais, de uma vida difícil, agarrada à terra, aos filhos, às tradições de vida, ou até mesmo empurrados pelas políticas de então, que desincentivavam, destituindo de condições, o grosso da população estudantil a prosseguir a sua formação escolar, não tivemos a fortuna de usufruirmos de um direito agora constitucional, o direito à educação elevada ao patamar mais distinto que cada um pudesse alcançar. É verdade que uma sociedade de doutores, para além de ser utópico, correria o risco de se desprender daquelas raízes populares que identificam um povo, que o tornam rico nos costumes e nos hábitos, e que o eternizam para além do tempo, para além de outros vazios sociais que criaria. Mas cada um de nós sentirá certamente, intrinsecamente, aquele formigueirozinho interior, próprio de quem vive com um certo apetite por mais uns grãozinhos de conhecimento e cultura. Oxalá os meus pais, e outros pais do meu tempo, tivessem tido essa possibilidade. Enquanto que naquele tempo, nas décadas dos anos 50 até aos anos 80, as políticas e as tradições de vida motivavam o abandono escolar, empurrando os jovens estudantes para fora da escola, grosso modo após a 4ª. classe, se não menos, e o investimento na educação de adultos estava reduzido praticamente à escala zero, actualmente, e desde os últimos 10 anos, com particular ênfase após a criação dos programas "Novas Oportunidades", cursos E.F.A, entre outros, os portugueses daquele tempo, do meu tempo, e de um tempo mais recente, puderam libertar-se de algum analfabetismo e incultura com o qual viviam em desconforto interior, e, qual avalanche impressionante, correram às matriculas dos cursos de formação para adultos e, aos milhares, impuseram a si próprios o que outrora lhes havia sido negado: Frequentar a escola e elevar os seus conhecimentos. Podemos discutir os níveis de exigência, a forma, os métodos, os programas, os modelos desses cursos, etc. mas, o que se torna inquestionável é esta demolidora vontade de aprender e ao mesmo tempo associar a essa nova aprendizagem novas vantagens para o mercado do trabalho, com outras armas, com outra bagagem, com outra formação, com outros conhecimentos, etc. no fundo, com outra confiança. É sabido que nem todos conseguem tirar proveito laboral dessas novas vantagens, mas o que fica depois do novo processo de aprendizagem é por si só de uma riqueza pessoal inquestionável. Parabéns a todos os que souberam aproveitar. Não desistam, a vida é uma luta muito dura. Mas quanto mais duras forem as lutas muito mais saborosas serão as vitórias.