
O presidente do Governo Regional mal tinha mastigado as 12 passas e já apontava a taça de champanhe a uma das suas mais dementes obcessões: a tentação para controlar toda a comunicação social livre. Com o 'dossier' RTP-M em aberto numa mão, endereçou, com a outra, votos "para que o Grupo Blandy arranje um indivíduo mais inteligente para ter à frente", o que diz muito sobre o carácter nocivo de alguém com responsabilidades de governação, apostado numa estratégia de motim que se arrasta há seis anos com o objectivo claro de asfixiar financeiramente o Diário de Notícias da Madeira - um plano maquiavélico que está à beira de condenar à morte um jornal centenário que luta diariamente pela independência a todos os níveis - à medida que, num contexto de concorrência desleal, o governante contraria todas as regras de convivência democrática, editorial e comercial, instrumentalizando a seu belo prazer o JM, um pasquim que agora vem aprimorado com um pedido de "solidariedade" estampado no cabeçalho da 1.ª página, quando deve um pedido de desculpas pela gestão danosa de 51 milhões de euros do erário público e por mais este roubo de 3,1 milhões de euros a um Orçamento que é, por natureza, socialmente pobre.
A bordo do 'Lobo Marinho', Alberto João Jardim viu o fogo-de-artifício e vaticinou para 2013 um ano de combate. Mas vai combater o quê? O desemprego galopante que atinge quase metade da população activa na Madeira? O empobrecimento da classe média por via de um plano de ajustamento económico e financeiro que assinou para ter com que pagar os salários dos funcionários públicos e ir amortizando a colossal dívida de mais de 6 mil milhões de euros? A exclusão social? A fome? A habitação social fraudulenta? A insolvência de perto de 4 mil empresas que vão estar no fio da navalha este ano? O combate dos madeirenses é outro: pela sobrevivência. O combate a que Jardim se refere é puramente político. Combater os seus 'inimigos' internos e externos, por afinidade ou por ódio de estimação. As metas não são as do plano de ajustamento económico e financeiro, pelo qual nos são exigidos todos os impossíveis. As metas são simplesmente as das eleições autárquicas de Outubro próximo. Assim tem sido a governação de Jardim: empurrando, com a barriga farta, os problemas para a frente. Quem vier a seguir que os resolva. Que feche a torneira ao desvario e finja criar um novo plano de salvação regional.
Continua a não haver um sinal de sacrifícios por parte do governo regional, nem um indicador que nos convença que os sacrifícios de hoje nos levarão a algum lado amanhã ou que nos afastarão do abismo, à beira do qual quem governa cultiva a batota num rol de vícios antigos. E isto faz toda a diferença num ano em que a austeridade financeira penderá sobre nós como um pêndulo até que se esgote a tolerância cívica e ao limiar ponto de já não haver mais taxas para inventar, nem margem para tributar rigorosamente nada. E vemos, enfim, o ano começar assim. Como começou o ano passado. Com as habituais incoerências entre quem governa e quem é governado. Como as novas regras de facturação. Todos os estabelecimentos comerciais estão obrigados - e bem - a emitir facturas independentemente do valor, sob pena de serem fiscalizados e de responderem criminalmente. O Governo Regional escondeu deliberadamente mais de mil facturas referentes a obras públicas, em benefício de interesses obscuros, onerando o erário público e agravando a austeridade fiscal que hoje pesa sobre os nossos braços. Sem um acto de contrição, um sinal de arrependimento. E, por enquanto, impunemente. Continua por explicar um mar de dúvidas como este: como pode um governo trapaceiro exigir transparência na facturação dos outros? Como pode um logro ter idoneidade para governar?