Os louvores continuam na ordem do dia. Não só pelos louvores a Afonso Almeida – já lá vamos... – mas porque a FIFA acaba de atribuí-los também a gente que os merece efectivamente. A bem dizer, até nem é a FIFA. Quem decidiu os prémios foi uma imensidão de gente, no mundo inteiro, com legitimidade para tal: os ‘capitães’ e treinadores das 209 selecções inscritas na FIFA, mais um jornalista por cada um desses países, da rede de correspondentes do jornal ‘France Football’. Agora é fácil saber quem votou em quem, mas também era fácil adivinhar a tendência geral, como eu fiz na crónica anterior, há uma semana. Primeira conclusão a reter: melhor leque de votantes não é possível. Qualquer outra opção daria sempre um resultado menos abrangente e menos próximo da realidade. Segunda conclusão: a FIFA exerce a sua enorme influência em muita coisa, é verdade, mas é ridículo que se continue a afirmar que esses senhores interferiram no resultado da votação. A única intervenção que a FIFA teve foi na escolha do leque de 23 jogadores que iriam a votos e tem mais do que competência para isso. Terceira conclusão: não há critérios rígidos que se possam fixar para a votação, pois todos sabemos que os ajeitamos sempre às nossas convicções. Quarta conclusão: o Messi foi mais votado porque uma esmagadora maioria gosta mais dele do que do Ronaldo. Uns valorizam o jogador, outros a pessoa, alguns uma coisa e outra. E é lógico que o façam. Quinta e mais importante conclusão: quem quiser fazer campanha ou ‘lobby’ pelos seus preferidos, não deve fazê-lo uma semana antes da entrega do prémio, porque nessa altura a votação está mais do que fechada. O Mourinho acusou o presidente da federação espanhola de ter andado a telefonar a treinadores e a capitães estrangeiros para influenciar a votação? E porque não o poderá fazer? Porque não o fizeram os responsáveis da FPF? E não fez Mourinho campanha a favor de Ronaldo? Qual o mal? O mal é que comunicamos mal. Ou então não nos ligam. Nem tudo vai com arrogância e “mind games”. Por exemplo, a melhor forma e o melhor ‘timing’ para iniciar a campanha a favor de Ronaldo para a votação relativa a 2013 seria, precisamente, na Gala que se realizou na segunda-feira em Zurique. Até me atrevo a uns palpites: Cristiano Ronaldo deveria ter tomado a iniciativa de felicitar o seu opositor e declarar, sem esforço, que no próximo ano como ‘capitão’ de Portugal, obviamente votará em Lionel Messi se nada de surpreendente ocorrer. Porque, não podendo votar em si próprio, o melhor é de facto o argentino. Era a melhor forma de começar a 'virar o resultado'... Quanto a Mourinho, poderá ter toda a razão do mundo, mas não é desrespeitando os eventos e os votantes que lhes pode exigir também respeito.

Agora vamos a outros 'louvores'. A semana passada, quando tomei conhecimento que o Governo Regional voltara a ‘louvar’ as “excepcionais qualidades” de um administrador do JM, não consegui suster uma gargalhada genuína. Lembrei-me daquilo que já escrevera sobre o anterior louvor, em 2004, à mesmíssima figura. Fiz uma pesquisa e vejam só o que encontrei:

DOIS VOTOS DE LOUVOR?

“Há 16 anos, estava eu a iniciar-me nas lides do jornalismo, quando me incumbiram de ir à serra fazer a cobertura das tosquias. Nessa altura, o presidente do Governo Regional ainda tinha pachorra para aqueles rituais e tinham-me dito que era importante acompanhá-lo de perto. Dito e feito. Infiltrado naquele pelotão de notáveis que sempre rodeia o líder madeirense, ouvi-o anunciar para o lado: "Querem ver o Almeida correr?" Depressa o visado se apresentou e Jardim deu as coordenadas: precisava que alguém fosse junto ao palco anunciar que iria antecipar a sua intervenção, por isso queria as pessoas juntas quando lá chegasse. E foi engraçado ver a correria do homem, a subir e a descer as encostas, até chegar ao outro lado, enquanto o pelotão o vigiava entre sonoras gargalhadas e piropos. Fiquei curioso. Quando me disseram que se tratava do director da RDP apanhei o primeiro de muitos choques que o jornalismo me tem deparado. Os anos passaram. É claro que tenho visto mais correrias do género, mas já não me impressiono tanto. Talvez por isso, não me espantei quando, quinta-feira, ouvi o Conselho de Governo atribuir-lhe um voto de louvor pelo seu pluralismo e isenção. Só não percebi o porquê de um segundo voto de louvor em meia dúzia de anos.” - ‘Ponto de Ordem’ in DIÁRIO de Notícias de 6 de Junho de 2004

O voto de louvor, versão 2013, acrescenta a referência ao agenciamento de artistas nacionais e internacionais, organização e produção de espectáculos, bem como a coordenação de livros que reportariam as obras do Governo Regional desde 1976. Alguém viu esses livros? Nós, contribuintes, não temos razões para ficar descansados, mas o mais barato daquilo tudo até foram os louvores. Que até rima com favores. Contas de dividir e outros horrores.