É uma tendência muito comum, muito humana. Quantas vezes não ouvimos, dissemos ou pensamos, "A culpa não é minha! A culpa é de ...". Parece que alguns pensam que parte da cura do seu problema, passa por deitar culpas, não vá alguém lembrar-se de nos acusar primeiro! Acerca da afamada crise, as pessoas dizem que a culpa é dos governos, o governo diz que a culpa é do governo anterior, ou que é da conjuntura internacional e há quem diga que a culpa é das pessoas, dos eleitores, da sua ignorância passiva ou activa. Na orgânica do processo acusatório, a preferência vai para alvos identificáveis, Sócrates, Passos, Jardim, Gaspar. E como estamos habituados a associar caras a culpas, esquecemo-nos que as culpas podem estar no rosto indiferenciado das políticas praticadas! Vamos supor que a culpa existe à semelhança de uma substância. Será difícil de medir esta substância, é certo, mas se existir estará certamente adstrita a responsabilidades. Responsabilidades todos temos, mas não equitativamente. A culpa seria uma substância que não se conserva, efectivamente nestes tempos a percepção é de que está a ser criada de forma localizada e em grande quantidade. Observa-se que há elementos de um conjunto vocabular que podem substituir aqui a substância etérea da culpa, mantendo a coerência de raciocínio, como sendo os vocábulos corrupção ou ignorância. Estes vocábulos constituem verdadeiros precursores da crise, o verdadeiro défice, assemelham-se a um buraco, o da ausência de uma formação íntegra, de conhecimento e competência, a uma ausência de valores. Todos os defeitos são muito humanos, mas nem todos são eternamente desculpáveis. Do ponto de vista relativo, esta reflexão faz sentido, muito sentido, mas no absoluto, não há culpa, ninguém tem culpa, ou teríamos de atribuir culpa a Deus pela criação. Caros eleitos e eleitores, se acharem que a culpa existe, se nos sentirmos atingidos por ela, só nos resta a opção divina; evoluir, i.e. mudar!

Rui Almeida, Deputado do PAN