A defesa da escola pública e da profissão docente levam novamente os professores portugueses à rua, no dia 26 de janeiro, em Lisboa e no Funchal. O momento da história da nossa democracia em que se põe em causa as funções sociais do Estado, em nome do equilíbrio orçamental e da saúde das contas públicas, suscita uma reação veemente por parte dos professores, não só na salvaguarda da sua carreira e condições do trabalho (ainda recentemente o SPM entregou o Caderno Reivindicativo para salvaguarda das condições do trabalho docente) , bem como de uma escola pública de qualidade, que neste momento está em risco. PROMOÇÃO DA JUSTIÇA SOCIAL É também um momento que suscita uma reflexão sobre as razões e valor da própria escola pública. O seu papel fundamental tem sido estreitar a distância entre ricos e pobres em termos de desempenho académico e de promover a mobilidade social. Um contributo para a justiça social. Na verdade, há efeitos que decorrem da educação que vão para além dos benefícios pessoais: por um lado, os ganhos individuais transformam-se em ganhos sociais, uma vez que é melhorado o capital humano, depois transposto para o local de trabalho, família e sociedade, por outro lado, incrementa-se a coesão social nas comunidades, outra dimensão fundamental dos benefícios da educação. As comunidades e famílias carenciadas nunca deixarão o ciclo de desigualdade sem ajuda externa para romper e ultrapassar essas circunstâncias. E esse papel é obrigação do Estado, consubstanciado na Constituição. Esse ciclo normalmente começa cedo na infância. Alunos que tenham recebido educação pré-escolar e elementar de má qualidade são menos capazes de prosseguir estudos em níveis do secundário e aceder ao ensino universitário. RISCOS DO DESINVESTIMENTO NA ESCOLA PÚBLICA Ora, essa falta de oportunidade de progressão educativa ao longo do tempo, leva a que o baixo nível de escolaridade passe de geração em geração. Isto conduz a um padrão multigeracional de níveis baixos de educação, baixa empregabilidade e pobreza, aumentando-se as assimetrias e desigualdades sociais. As classes desfavorecidas tendem a fazer o ensino obrigatório e aumenta-se o risco de abandono escolar. Há ainda efeitos secundários e nefastos na sociedade decorrentes da falta de escolarização e educação de qualidade. Parece-me óbvio que há todo o interesse de investimento na educação principalmente por parte do Estado, pois uma sociedade menos escolarizada e educada produz efeitos nefastos a todos os níveis, incluindo o económico.
Sofia Canha