O calor, no dia que vos escrevo, é escaldante, cheio desta lentidão armazenada que certos dias de Verão acumulam como uma semente. E, todavia, o mar não está longe, a pouco mais de umas centenas de metros, sem se fazer sentir neste dia sufocante. Uma sombra perdida num sítio onde encontrei abrigo, paz e sossego. Paz que entra em mim e se demora, paz de lazer e anonimato que me leva para longe sem me levar a sítio nenhum. Comigo, a tarefa para estas curtas férias de Verão que queria que fossem calmas e sem desassossego ou preocupações acrescidas com este país, "singular terra em que tudo gira à mercê do vento e, permanentemente, se discute a própria raiz da vida nacional". Por isso, a tarefa se traduz na leitura de um livro que solenemente fui buscar à estante, onde repousava há muitos anos na prateleira, do qual tinha uma ideia clara do seu conteúdo e se me dizia adequado para este período, principalmente, quando se comemora o centenário do nascimento do seu autor - Jorge Amado. Quando uma nação se condena pela boca dos seus próprios filhos, é difícil, senão impossível, descortinar o futuro de quem perdeu, por tal forma, a consciência da dignidade colectiva. E é precisamente isto que o 'Cavaleiro da Esperança', livro marcante de Jorge Amado, nos transmite, nesta obra, com algumas dezenas de anos e quando o Brasil procurava sinais de liberdade e esperança para o seu povo. Mas nem sempre o que nos propomos fazer em férias acontece - é impossível estar isolado do mundo, dos seus actores e das suas circunstâncias - e a intrusão é perturbadora de uma certa quietude a que nos propusemos e de um certo distanciamento que o isolamento se propunha garantir. Não são meros 'faits divers', neste Verão quente, mas mensagens perturbadoras do espírito dos portugueses quanto ao futuro de todos nós. Falo-vos do discurso de Passos Coelho no Pontal, que na sua essência é uma mentira profunda da forma como estamos e uma quase certeza de "mais austeridade" que se propõe apregoar, dentro de dias, quando da discussão do Orçamento de Estado para 2013. Aliás, 2013, que na opinião de Passos Coelho traçará o início da recuperação económica, algo contraditório e incoerente com todos os indicadores que todos os dias nos são arremessados como pedradas dirigidas às nossas vidas já de si tão intranquilas. Afirmar que 2013 será o ano da viragem e recuperação pode ser um piedoso optimismo mas é uma eloquente mentira. Tento libertar-me de tanta irresponsabilidade e incompetência e retomar a caminhada do meu 'cavaleiro da esperança' mas, nem de propósito, choco-me com os jornais do dia e com a 'aventura independentista' de Alberto João Jardim. São declarações para não levar a sério e mais não representam que a consciência que o presidente do Governo Regional tem da sua incapacidade de cumprir o programa de reajustamento que ele próprio propôs ao Governo central. Fazer um referendo regional para saber o que pensam os madeirenses sobre a autonomia que têm é algo de delirante, primeiro por ser inconstitucional, segundo porque a maioria dos madeirenses deve saber que a abrangência autonómica aprovada nas últimas revisões ainda não foi levada à prática por incapacidade ou desinteresse do Governo Regional. E, mais do que tudo, é ignorar o portuguesismo desta gente insular. Não sei se estas declarações foram feitas à saída do bar do Evaristo, no areal do Porto Santo, ou em qualquer festejo muito próprio da época do ano. Na minha opinião e, no mínimo, foi uma cortina de fumo que Alberto João Jardim quis lançar para ocultar a sua própria incapacidade governativa e os momentos difíceis que o povo madeirense está a passar com tanta corrupção, falta de ética e ocultação de tudo o que é evidente mas que ele não quer aceitar, passando ao lado do 'Estado de Direito' que agora clama quando sabe e se afirma, na política, como o tirano que tudo impõe e um negador das liberdades do seu povo, nomeadamente a liberdade de expressão e opinião. A sua postura perante o próximo Congresso Regional e as suas exigências regimentais indiciam, só por si, que muito tem que mudar para que os madeirenses tenham direito ao seu próprio futuro. Fecho os jornais e proponho-me retomar a leitura, antes de um jantar que se quer leve, fresco e saudável, muito ao jeito destes dias de Verão. Faço um compasso de espera e ligo a televisão e deparo-me com António Borges, consultor do governo de Passos para as privatizações, e fico de boca aberta com o desplante, o arrojo, a falta de respeito pelos telespectadores, pelos portugueses em geral e pela democracia que se agonia, dia após dia, no nosso país. Voltarei a este assunto em breve. Começo a duvidar das mensagens e do seu significado mas penso que o mal está nos mensageiros e nas suas ideias, no clientelismo e nos interesses que elas representam, da falta de valores e da crise de ética que vigora na nossa sociedade. De facto esta crise é a crise de todas as demagogias e de todos os populismos, no país, como aqui, na Região. Retomo o 'Cavaleiro da Esperança', antes disso recordo uma velha verdade: "Ninguém é verdadeiramente autor do que escreve; o que se deixa escrito nunca é aquilo que se queria escrever; o que os outros leem é outra coisa também. Talvez por isso escrever é ser-se mais do que se é." Porque o melhor é ouvir, neste caso ler, e por isso tento cavalgar nas palavras do 'Cavaleiro da Esperança' mas sem que a suavidade do fim de tarde me traga maior tranquilidade. Talvez me retemperem forças e me agarrem à Esperança. Registo as suas palavras: "Só o povo, concebe, alimenta e cria o Herói. Nasce das suas entranhas que são as suas necessidades. Nasce do povo, é o próprio povo no máximo das suas qualidades. Como o poeta, vai na frente do povo. O Poeta e o Herói constroem os povos, dão-lhes personalidade, dignidade e vida. São momentos supremos na vida de uma nação e na vida de um povo. Tão necessários como o ar que se respira, a comida que se come, a mulher que se ama. Por isso, os inimigos do povo, os traidores do povo, os que o querem enganar e desgraçar, tentam apresentar poetas e heróis nas praças públicas. Mas, esses são falsos heróis e falsos poetas. O Poeta está na praça quando o povo clama pedindo liberdade. O Herói está na frente do povo quando o povo se levanta, conquistando a liberdade. Os outros são fabricados, poetas incensadores dos tiranos nascidos de um sector de classe, vendidos por migalhas de pão de mesas ricas, capados no seu poder criador igual a um capão que tem a plumagem tão linda como um galo, mas não tem nenhuma força viril. E os que, coroados de louros, se apresentam como heróis são apenas tiranos sobre o povo em dramático carnaval". E assim termina esta crónica de Verão. Uma espécie de experimentação para os próximos artigos que vou tentar escrever. Assim Deus me ajude… Porque Jorge Amado foi um belo exemplo disto. Foi também um grande exemplo de amor ao seu povo.

Roque Martins