Depois do que tenho visto nos últimos anos, começo a acreditar que a maioria dos portugueses tem capacidade para ser primeiro-ministro. Ao fim de tanto tempo, a minha geração descobre que a governação faz-se de forma simples: enquanto há dinheiro, gasta-se à grande, e quando acaba aumentam-se os impostos. E se mesmo assim não chegar, aumentam-se mais. E se ainda for insuficiente, aumentam-se outra vez. O povo grita, esperneia, talvez até se manifeste, diz palavrões, ofende os governantes e as mães deles, mas isso é o menos, o povo come, paga e cala. Há mais de trinta anos que é assim. Quem viu o ar pungente com que o primeiro-ministro falou ontem ao País não pode deixar de estar indignado. Este primeiro-ministro é o mesmo que se tem desmentido a si próprio desde que alguém o convenceu a ser o que é hoje (se ainda não se demitiu). Anuncia dificuldades e aumenta impostos com a mesma facilidade com que promete exactamente o contrário. E parece que vive noutro país. Mas não é o único. Quem ouve Cavaco Silva falar ‘do’ Presidente da República tem de ficar irritado. No mínimo. Aquele rosto fechado sob um cabelo bem penteado fala como se fosse um de nós. Não é! Alguém tem de lhe dizer que é ele o Presidente da República Portuguesa e não outro. E que este País que lhe confiou o cargo espera dele um sinal, uma posição, uma opinião. Assim, qualquer um é Presidente, basta dizer que não sabe, não foi informado, não viu, nem estava lá. Nisso, Cavaco é coerente: nunca está lá. E por cá, quem ouve Alberto João Jardim falar fica com a certeza de que ele não vive na mesma terra do que nós. É certo que é dos poucos que não precisa tirar um tostão do seu bolso, o mesmo onde todos os meses caem dois ordenados. É certo que não sabe quanto custa um pão, não faz a menor ideia do valor que pedem por produtos de primeira necessidade, há mais de trinta anos que não vai ao supermercado, não sabe quanto lhe custa a luz, a água, o telefone, a gasolina... nada de nada. E, no entanto, ouvimo-lo falar de receitas para salvar a Europa e outras coisas grandes, quase tão grandes como o logro em que se transformou o presidente que nem a sua terra sabe como endireitar. É neste mar de irresponsabilidade e neste deserto de ideias que estamos metidos. Ninguém sabe a solução, ninguém faz ideia de como vamos sair disto mas todos, ou quase todos os governantes, dão palpites e têm a certeza de que estão no caminho certo. Os outros, dizem eles, é que estão errados. E depois temos estas coisas mesquinhas, à portuguesa, de brincar com coisas sérias. Sim, porque só um primeiro-ministro de um País de brincar é que se dá ao desplante de explicar aos portugueses o ‘saco de gatos’ em que nos meteu a todos justamente em cima um jogo de futebol onde se cantou o hino nacional. Isto é jogada barata, baixa, rasteira mesmo. Que seria aceitável vindo de um espertalhão qualquer com equivalência a ministro, mas nunca de um estadista. Que ainda por cima se refugia no Tribunal Constitucional, na ‘troika’, nas contas que encontrou, na emergência financeira e outras balelas. E perante o quadro negro, que apresenta com voz grave, que faz o governo? Carrega nos trabalhadores com impostos, mesmo que lhe chame outra coisa, e alivia a carga às empresas. E diz que é assim que se criam empregos e que para o ano é que vai ser e que a economia está a dar sinais de crescimento e que a Europa aplaude o nosso esforço e outras coisas que tais. Assim até eu fazia. É carregar em quem trabalha até os fazer ajoujar. Carrega trabalhador. Carrega até não poderes mais. E, ou muito me engano, ou a hora de deitar a carga ao chão está cada vez mais próxima. Não é por falta de patriotismo, nem sentido de Estado, nem o reconhecimento que demos, quase todos, o passo maior do que a perna. É por uma razão bem mais simples: o povo não aguenta mais. Chega!