Era uma urbanização de classe média a atirar mais para o alto. Daquelas onde as lojas cheiram a novo e há cafés e coisas a abrir em cada arcada. Mas o supermercado era dos ditos ‘discount’, ainda que com outra apresentação próxima de muita loja ‘gourmet’. Era assim um poço de contradição, como aquele lugar onde um bairro fino nasceu num local outrora de barracas. Hoje já lá não estão, mas estão os resquícios. E as dualidades são evidentes.

Enquanto atirava coisas para o carrinho para encher uma despensa encerrada para férias durante semanas, deitava o olho às revistas cor-de-rosa, num exercício de fugir mais um bocadinho às notícias dos números. Dos sacrifícios tantas vezes multiplicados pelas famílias, para acabar numa divisão do Governo e numa soma de responsabilidades que a ‘troika’ diz ser inteiramente nossa. Assim, como se um tutor nos indicasse (obrigasse) um caminho e uma vez seguidos os conselhos nos dissesse: ‘Não funcionou? Paciência, a culpa é tua’. Fica o recado para aqueles que disseram querer ir além da receita, que o melhor é diminuir nos condimentos. Pode ser que resulte melhor. Entretanto, há um país à fome.

Ora, estou no corredor da cerveja. E penso nas notícias que marcaram a 'silly season' da pérola plantada no Atlântico, atordoada em festas regadas a poncha e em ‘drogas legais’ (o contra-senso de escrever estas duas palavras juntas ainda me faz arrepios). Queria-me rir com histórias de petróleo e de gente com responsabilidade (?) que manda estudar jornalismo a quem lhe pergunta pela execução orçamental num dia que era suposto falar de uvas e vinho e acabou a falar de outra bebida. Não consigo esboçar nem um sorriso, contudo. É melhor, de facto, concentrar-me nas revistas e ver quem é que arrasou na praia este Verão, enquanto espero para pagar na caixa.

Entra um grupo de crianças muito barulhento. Um, o mais novo, vai comprar uma coisa para dividir com todos. Opinam aos gritos. Fazem uma algaraviada que obriga os funcionários a pedirem silêncio. Ignoram. O mais velho não deve ter mais de dez/ doze anos. Ao dirigir-se para a caixa, finge com os dedos que traz uma arma. “Eu fico com o troco”; “Olha que é para todos”, vão gritando. Os miúdos daquele bairro gastam os últimos cartuchos das férias com avós, com pais, em colégios que já abriram as suas actividades. Vejo-os protegidos nas suas varandas novas. Estes estão na rua. Não são dali. Penso onde estarão aos pais. A trabalhar para garantir sustento enquanto as crianças estão na rua à sua sorte? No desemprego? São estes os miúdos que o Governo quer esconder no ensino profissionalizante? Como se aprender uma profissão não fosse uma coisa séria o suficiente.

Estou a meter os sacos no carro. O mais pequenino do grupo desata aos gritos rodeado por outros dois. Tem o saco dos doces na mão. Vazio. Chora compulsivamente. Os ‘ladrões’ desataram a correr. Passo por eles, de propósito, e confronto-os. Não se intimidam. “Eles também nos fazem”. Tenho de virar costas e tento pensar que são coisas de crianças. Mas não é coisa de miúdos. É a sociedade que temos, de vidas hipotecadas à partida. Penso em como vou fazer para evitar que tirem os doces ao meu filho um deste dias. E os doces podem ser tanta coisa. Em como posso protegê-lo do que o espera vida fora. E assusto-me. As notícias dos números que evitei ler estão na rua. A ‘silly season’ é apenas uma desculpa para fecharmos os olhos por uns dias.