O Ministro Crato decidiu: a partir do 6º ano de escolaridade o ensino vocacional será uma via obrigatória (?!) para quem tenha historiais de repetência, saída institucional para alunos com aproximadamente 12 anos de idade, ou "os rijinhos de cabeça" que não dão nada para a escola, ou a escola não dá para eles, conforme o ponto de vista. Mais uma oferta escolar para alunos, que por diversos factores não se encaixam no espartilho do currículo único igual para todos. E uma inqualificável desvalorização e estigmatização de tantas profissões, vistas como saídas menores para cidadãos considerados incapazes de fazer o percurso escolar padrão. A novidade é o caminho profissional como uma penalização imposta numa idade tão precoce. O Ministro Crato legitima assim aquele que é o sentir de uma certa faixa social do nosso país: os estudantes, os intelectuais vão para a universidade e terão (ou não!) profissões valorizadas, de colarinho branco e ar condicionado; os cábulas, os "faltantes", os "abandonantes", (os patas-rapadas?) os … vão para a oficina, ou para a foice e a enxada, para o trabalho manual indiferenciado, desqualificado, o gueto laboral. As escolas estarão capacitadas para abraçar esta vertente educativa que pretende tão só a bondosa intenção de criar "igualdade de oportunidades e ensino que vá de encontro a todos os públicos" e permita a "aprendizagem de profissões concretas". Ou como no caso dos CEFs, espartilha-se estes alunos à oferta que a escola tem, gostem ou não. E poderão sempre voltar ao currículo "normal", aquele dos que não chumbam, com boas notas a Matemática, que farão o percurso "padrão" até à universidade e para quem se destinam as profissões "nobres". Sim. Porque os bons lugares têm de ser reservados como antigamente. Tão simples! Equipas orientadoras ajudarão os alunos e as famílias nesta decisão tão determinante, as escolas estarão equipadas de todos os materiais necessários à aprendizagem das desejadas profissões de electricista, carpinteiro, canalizador, talhante, jardineiro, etc., e o mercado de trabalho (ou será melhor dizer, o mercado do desemprego, da exploração laboral, da neo-escravatura, das empresas de trabalho temporário?) rejubilará em ofertas chorudas de postos de trabalho. E eu acredito no Pai Natal! O Ministro Crato apresenta uma solução perversamente simplista para um problema complexo como é o insucesso escolar tradicionalmente remediado com repetências, que raramente resolvem a origem dos múltiplos problemas individuais e não só, determinantes das questões da aprendizagem. Esta medida política é mais um exemplo da confusão ideológica e conceptual que tem estado subjacente aos destinos da Educação no nosso país e que se tem traduzido em opções educativas, do tipo navegação à vista, anúncio mediático para encher o olho, olhadas pela sociedade como vias de segunda categoria. E revela uma profunda ignorância da vida das escolas e do funcionamento das soluções milagrosas implementadas e falhadas, na sua maior parte. O facilitismo ao contrário. E quando se esperava uma corajosa reformulação do ensino profissional, uma orientação vocacional a sério, tendo em mente a actual incerteza quanto ao futuro, a exigir uma imprescindível mudança de cânones! Já se sabe quem serão os alunos usufrutuários de tão inovadora e genial medida. Ou não fossemos nós um país conservador e elitista, onde muita gente convive mal com essa ideia de ter uma escola para todos, de promover a tamanca ao trono e ainda suspira pelas escolas industriais e comerciais, desmanteladas pelos lirismos revolucionários do 25 de Abril! E é verdade que a escola que temos tem prometido e falhado com muitos! Não é possível evitar uma reflexão à volta do quão convencional e formatado é o saber escolar, desenhado sempre de acordo com os padrões e interesses dos grupos no poder. E de como na cartilha das elites e hierarquias do nosso novo-riquismo democrático, o capital social associado ao apelido e estatuto das famílias e grupos influentes continuará a pesar mais do que o capital cultural do diploma, no salvo-conduto para o cada vez mais escasso emprego. Os exemplos Relvas e quejandos dizem bem dos ocupantes dos lugares de topo. A escola decide quais os conhecimentos certificados e válidos. De fora do seu alcance fica toda uma imensidão de saberes e competências adquiridas na universidade informal da vida, que não dão diploma, não constarão do sumário de aula, de que não há manual escrito, nem exame formal e que muitos grupos sociais ao longo de séculos praticaram e transmitiram: a ciência do saber fazer, estratégias de sobrevivência desde o cultivo da terra ao amassar do pão, por exemplo. Vítima de um cruzamento ambíguo e contraditório de mensagens, umas vezes instituição, dita inclusiva de todas as crianças, atenta e respeitadora da diferença, cumprindo essa aura mítica e utópica da democracia e dos princípios universais dos direitos humanos, a escola não esconde porém, a vertente de entidade seleccionadora e defensora de hierarquias sociais. Uma última dúvida se coloca: em tempo de cortes orçamentais e desemprego docente, haverá dinheiro para pagar profissionais que acompanharão alunos e famílias, neste processo de escolha obrigatória de uma profissão; haverá dinheiro para equipar escolas com oficinas para a aprendizagem vocacional; não haveria dinheiro para actuar mais cedo, a montante, para promover percursos escolares de sucesso e permitir escolha profissional atempada, dignificada, consciente e livre? Ou é esta a vontade política?
Júlia Caré