Visto daqui, da Venezuela, isso está "feio", "podre". Lembra o tempo em que Gabriel Teixeira Ascensão saiu daí. Os portugueses desembarcaram, sobretudo, entre 1948 e 1983. Gabriel desembarcou em 1963. Tinha dez anos. Viajou sozinho, num barco italiano que se chamava "El Caribe". Fugiu à fome e à guerra colonial. Uns tios, que já cá estavam, arranjaram-lhe trabalho numa mercearia de uma favela de Caracas. Dormia em cima de caixotes de madeira, com um par de sapatos a fazer de almofada. "Comia pão com banana e era bom!" Estava habituado a trabalhar. Aos cinco anos já vendia figos em Câmara de Lobos. Trocava-os por castanhetas. Apesar da dureza daqueles tempos, havia toda a diferença entre o velho e o novo mundo de Gabriel. Dir-se-ia que Portugal tinha mais passado do que futuro. Qualquer esforço para sair da miséria parecia inútil. A Venezuela tinha mais futuro do que passado. Parecia oferecer possibilidades de ascensão social a todos. Os portugueses trabalhavam até 20 horas por dia para abrirem os seus negócios. Tantos tinham apenas a sua força de trabalho para investir. Muitos converteram-se em "sócios com dívidas". E Caracas foi ganhando uma enorme variedade de estabelecimentos comerciais e pequenas indústrias de portugueses. Gabriel começou com um pequeno serviço de café, dentro de uma empresa de telecomunicações. "Agora, tenho 180 empregados", dizia-me, orgulhoso, numa destas noites, no Centro Português de Caracas. Tem lojas, restaurantes e "um mundo de amigos". "Tudo o que tenho me deu este país. Portugal não me deu nada. O emigrante é mal recebido. Vamos lá passar férias, gastar 'plata', e somos mal recebidos." A RTP-Internacional mostra-lhe Portugal a sair à rua, indignado com o presente que torna a ameaçar engolir o futuro. É preciso reverter a situação económica e social do seu país de origem, da sua ilha de origem. Quer investir aí, apesar de tudo. A todos cabe contribuir para que Portugal tenha mais futuro do que passado. E isso inclui os portugueses residentes no estrangeiro, que têm optado pela abstenção na hora de votar.

Ana Cristina Pereira