O primeiro ministro deste Portugal à deriva citou Camões num último truque de ilusionismo, talvez confiando na alquimia da poesia. Falhou contudo os ventos, chocou pela apropriação do nosso poeta maior e naufragou na descrença que o rodeia como tempestade que não se cala.

Sim, sopram ventos, mas não aqueles que o Governo julga e acredita. É da natureza do vento esta liberdade de soprar em sentido contrário, de soprar para onde a força o leva, para onde a vontade própria o dirige.

Este vento que sopra em Portugal é novo, nasce de um acordar motivado pela fome e pelo desconforto de não sentir a terra por debaixo dos pés.

Um povo faminto de alimento e de esperança enche as ruas como há muito não se via. Ressuscita dessa força maior que é movida pelo abismo. O povo até agora amorfo, desligado, inebriado pela ilusão acordou não para um despertar sossegado, mas para uma insónia que promete não deixar ninguém dormir.

Não é nem confortável, nem natural esta insónia e este vento. É um vento que vem de dentro, do mais profundo e escondido lugar de uma humanidade que se levanta, de uma força que se agiganta sozinha, como se nascesse de novo, abrindo os olhos e a garganta num choro que pretende anunciar uma mudança de sentido, de rumo, de caminho. Aos que governam resta apenas interpretar bem o ‘poema’ que cresce nas ruas de todo o país e ilhas.

Sim, porque também aqui, e apesar das tentativas desesperadas de fazer crer o contrário, há um vento de mudança que sopra rente ao mar, que sobe às escarpas íngremes e que se deixa cair em desespero crescente.

Herberto Helder descreveu a ilha como tendo a forma de um “cão sentado com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água. O cão tem as orelhas fitas porque recebe notícias de vento ao mesmo tempo que cheira e olha o mar. O cão está sentado no Atlântico”.

Poderíamos dizer que o cão em forma de ilha já começa a dar sinais de que se vai levanter, o olhar deste cão tem a violência de quem não ficará em silêncio por muito mais tempo. De orelhas aguçadas, o cão desconcentra-se das notícias do mar e presta uma atenção maior às notícias que sopram da terra. E estas gritam o naufrágio, denunciam as palavras que já não são verdade, que se inquietam, que se tornam grandes, depois maiores até saltarem do silêncio contido e obediente.

Sim, é possível, ouvir toda a poesia que nasce deste novo tempo. Para a percebermos, contudo, é preciso primeiro aprender a ler o vento e os cães e a sua humana condição.