Muito boa gente está agora a passar por maus momentos. A ter que conviver com essa coisa estranha da democracia, da diferença de ideias, do pensamento livre. Que chatice, devem resmungar os que se habituaram a mandar e a mandar durante mais de 30 anos. Logo agora que o cortejo se aproximava do fim, logo agora que era só definir a quem deixar a herança, logo agora que isto prometia mais um passeio às costas dos tolos, vêm “uns tipos” como dirá o líder de sempre, que estragam a festa. Pois é. O filho único, o sobrinho único e até agora o auto-intitulado único importante, é obrigado a deixar o pedestal, descer à terra, até deixar o carro oficial por um particular e ter de enfrentar “uns tipos” que teimam em dizer que pensam de forma diferente. Que têm outras ideias para a Madeira, para o Governo. E a confusão que isto faz junto de cabeças formatas para dizer que sim a tudo e quase sempre que sim por tudo e por nada. E ainda por cima, pensará o líder, “esses tipos” - que é a forma mais simpática que tem para se referir a quem tem a ousadia de se lhe atravessar no caminho – são cada vez mais. Parece que se reproduzem como cogumelos. E engana-se o presidente se pensa que “esses tipos” são apenas o presidente da Câmara do Funchal, seu chefe de gabinete e dois vereadores rebeldes. Não, já são muitos mais! São presidentes de Junta, são antigos directores regionais e até, veja-se o desplante, o primeiro presidente da Assembleia Legislativa da Madeira! Mas o que o presidente ainda não sabe, nem os seus mais próximos se atrevem a dizer-lhe, é que, cá fora, sem as amarras do partido, são muitos mais os que se deliciam com a brisa de democracia que este congresso do PSD vem trazer à Madeira, ganhe quem ganhar. Afinal, pensarão agora alguns dos que estiveram adormecidos durante décadas, é possível dizer que não, até bater o pé e seguir outro caminho. Mais difícil, é certo, mas também mais de acordo com quem escolhe sair da via rápida e entrar nas veredas da vida. Este nervosismo que atravessa o PSD não é mais do que uma velha provação por que já passaram milhares de madeirenses que não estavam no PSD. Não é difícil perceber que estas dificuldades foram, e são, sentidas diariamente por quem acha que muita coisa foi bem feita, mas tem a honestidade intelectual de afirmar que há igualmente muita obra feita em cima do joelho, desnecessária e agora por pagar. O que este congresso do PSD mostra, sobretudo ao PSD e aos madeirense mais distraídos, é que, na Madeira, o pleno exercício da democracia confunde-se com sacrifício. O que era para ser o menos mau dos sistemas políticos, afinal vem embrulhado num pano laranja, já esfarrapado, mas laranja e com setinhas para o céu, mesmo quando desce ao inferno em que vivem milhares de desempregados, de pobres, até de esfomeados. Do outro lado, os mais perversos oposicionistas estarão a saborear este momento com o sorriso da vingança. Dirão mesmo que no PSD provam agora do próprio remédio. Mas esses são, afinal, iguais aos que criticam. E não entendem que para garantir exercícios mínimos de democracia não são precisos tantos sacrifícios. Basta saber viver em sociedade com atenção e tolerância. O resto vem por acréscimo. É isso que dizem os que estiveram do lado de fora do pensamento único que reinou até agora. E não falam de cor. É de experiência feito o saber que acumularam. E de sacrifício, como agora está à vista de todos. Sejam bem vindos, os que saem agora da redoma. Fiquem certos de uma coisa: cá fora também se vive. E de pé!