O tempo é o eterno mestre que se rejeita na urgência do fazer ou da vontade de vingar uma ideia, que se transforma em luta, se necessário, na argumentação que nega o conhecimento, a história e, no limite, a memória que deveria constituir-se alicerce da projecção que se pretende promover. No calor do momento, o instante transfigura-se em eternidade, justificando argumentações e rupturas impensáveis minutos antes. Tudo em nome do futuro. De um futuro com uma ânsia urgente que esquece que o hoje é o futuro de um ontem que convém não esquecer como se fosse um passado remoto. É quando se diz que a memória se torna curta e, diminuída, muito útil. Essa memória necessária, se utilizada, permitiria duas contribuições interessantes. Em primeiro lugar, um tempo, novamente, para se olhar para o percurso que nos conduziu até ao futuro que é hoje e, em consequência, e em consciência, reduzir a contenda ao essencial, à avaliação justa, racional e adequada do caminho feito e do que falta fazer, naturalmente incluindo os erros e as glórias. Este exercício pelo que importa de informação ajuda a uma redução do natural vazio de conteúdos da disputa acéfala com base no contar de espingardas em vez de ideias, pensamentos e propostas capazes de mobilizar uma audiência que está para além dos círculos próximos das partes em contenda mais uns quantos voyeurs e um ou outro abutre que sempre surgem neste tipo de ocasiões. Os tempos que vivemos são críticos, pela situação económica e social, pela dependência externa, material e política, e pela escassa capacidade de manobra devido à nossa dimensão reduzida e distância relativamente aos centros de decisão e aos mercados alternativos. Contudo, a situação que vivemos não é inédita nem tão pouco somos os únicos, no Mundo, a ter passado por algo semelhante. Há soluções e, melhor que isso, estão ao nosso alcance e dependem de nós, do saber, da capacidade, do empenho, do esclarecimento e da decisão que só nós podemos tomar pois, é claro de ver que não está para chegar em breve nenhum benemérito que nos possa salvar. Recentemente alguém me dizia, numa parte do mundo que prospera, apesar de insular, pequena e remota, que não entendia porque passamos tão mal. Se há infraestruturas, equipamentos, pessoas e competência, qual é o problema? O que nos impede de produzir, de crescer, de ser competitivos? À parte algumas cenas derivadas de decisões externas cuja motivação política é claramente, diminuir a autonomia que tanto incomoda a iletracia da administração nacional e que nos coloca algumas dificuldades acrescidas, há condições para seguir em frente. Naturalmente tomando decisões, assumindo compromissos e requisitando uma mobilização global (todos somos poucos) em torno daquilo que nos é comum e que é a nossa memória, identidade e vontade. Se não nos perdermos em cenas de pequenos heroísmos para consumo doméstico, se dedicarmos alguma energia e trabalho a pensar o futuro, olhando para o que se fez, de bom e de mau, poderemos continuar, com confiança e capacidade para superar o que hoje nos impede de começar a fazer esse futuro que não passa só por aqui.

António Domingos Abreu