Diz que quando falha um casamento é sempre responsabilidade de ambas as partes. E o divórcio cada vez mais iminente, e sem retorno, entre os cidadãos e a classe política não é excepção. O povo é de brandos costumes. De norte a sul, com passagem pelas ilhas - onde a insularidade e a capacidade de resistência sempre viveram paredes meias -, é gente que não cede à revolta fácil. Que passa bem sem violência, mas que raramente volta atrás quando chega ao ponto de saturação e diz ‘basta’.

A classe política acomodou-se. Deu o povo como garantido. No país e na Região. No continente, viveu aparentemente bem com a fraca alternância, na Madeira nem alternância houve. Passaram-se anos, entretanto. A paixão do Verão quente e dos tempos em que a política se fazia na rua - e o povo era participante activo – desvaneceu.

A relação esfriou, mas nenhuma parte deu o flanco. O povo deixou andar. Tanto os que votaram em eleições ano a fio e foram renovando os votos ora mais à direita, ora mais à esquerda, mas sobretudo aqueles que deixaram de se preocupar e passaram a engrossar a lista cada vez maior da abstenção.

Era um sinal sério para recorrer à terapia conjugal, mas ignorou-se. E a classe política, que tinha sérias responsabilidade de manter acesa a chama da cidadania, chutou para canto. E, egoísta, passou a viver fechada em si mesmo. Preocupada com os seus negócios, em salvaguardar interesses próprios e de amigos, focada na reeleição. Da falta de responsabilidade ao descrédito foram dois passos.

O povo fingiu que não viu. Assim como assim não se vislumbravam grandes alternativas e o medo da solidão e a necessidade de protecção foram falando mais alto.

É difícil, contudo, viver de aparências. E o mal estar começou a tornar-se indisfarçável. O povo deixou de comparecer a eventos públicos com a classe política. Tantas vezes as urnas foram preteridas e a praia foi mais sedutora.

Por fim o que ainda mantinha esta união frágil e de conveniência deixou de existir. Afinal, a classe política andara a esconder coisas e o povo estava longe de conhecer toda a ‘estória’ da economia da família Estado. Que estava falida, endividada e pior sem capacidade de recorrer a empréstimos, porque já ninguém lhe empresta dinheiro. Na luta contra a bancarrota, a classe política chamou o povo para ajudar a pagar. Juntos, unidos, como um casal deve ser na adversidade. E já agora que pagasse mais o povo – que é mais resistente. O povo anuiu, até que um dia bateu o pé. E a classe política voltou-se para dentro, de novo. Na Madeira, a classe política governante só pensa na manutenção do poder, em Lisboa, teimosamente, garante que só ela sabe o caminho a seguir e que o povo nada sabe.

Não há sinal algum de reconciliação. O divórcio parece irreversível. Pior: Será na praça pública, litigioso com consequências graves para o sistema democrático como conhecemos.

É verdade que há sempre culpas a repartir, mas é evidente que há uns mais culpados que outros.