1 - Principia um novo ano escolar, um ano para o qual não se auspicia nada de bom. As verbas para as escolas sofreram novos cortes, muitos daqueles colegas de anos anteriores geralmente mais novos, mais entusiastas e empenhados, que ainda acreditam, quiçá os melhores de nós, ficaram sem colocação, o ambiente vivido na sala de professores acusa o peso da depressão causada pelas medidas dos iluminados que governam este país. Receia-se que o comportamento dos alunos seja pior, refletindo inevitavelmente os problemas familiares e socioprofissionais. Em algumas escolas, foi estabelecido que fotocópias só haverá duas por período e por turma, destinadas exclusivamente a provas de avaliação. Entende-se que assim seja, pois não somos nenhum clube de futebol profissional. Começamos o ano letivo, implementando a enorme mistificação de Nuno Crato, que, em nome da melhoria da qualidade do ensino, aumenta o número de alunos por turma, suprime disciplinas curriculares, corta apoios e passes sociais, cria mega agrupamentos de escolas, os quais, além de serem contra tudo o que é aceite em termos pedagógicos, são ingovernáveis, tornando os problemas e a respetiva solução tão distantes como a Terra de Marte. Ao suprimirem disciplinas curriculares, é óbvio que vão sobrar professores, e se se continuarem a suprimir, mais sobrarão, cumprindo os desígnios do PM e do Ministro das Finanças. A mistificação e o dogmatismo de Nuno Grato, trazem-nos à memória a defunta FEC-ML. Com intensa cobertura mediática, o ministro definiu a "linha correta" para o nosso sistema educativo, que, para além das malfeitorias já referidas, consiste em aumentar a quota de ensino profissional no secundário para valores à volta dos 50%. Com esta medida had hoc, Crato pretende essencialmente ir buscar uns dinheirinhos à Europa, elegíveis para o pagamento dos custos deste tipo de ensino, pois, doutro modo, o dinheiro teria de sair do OGE. Continuamos como país a necessitar urgentemente de quadros intermédios devidamente qualificados. Contudo, sem correr grande risco, poderei antecipar que estes cursos são uma fraude e não irão de modo algum resolver coisa nenhuma, entre outras pelas seguintes razões: Desde o Estado Novo com a criação dos liceus destinados à formação das futuras elites dirigentes e das escolas técnicas, destinadas à formação dos técnicos necessários às necessidades das indústrias emergentes, lançou-se o conceito de que o ensino técnico em Portugal é (até hoje) um ensino de 2ª categoria. Veiga Simão, com a sua reforma, perdeu a oportunidade soberana de reabilitar o ensino técnico, complementando-o com disciplinas essenciais, como o caso do Inglês, optou porém por suprimir, pura e simplesmente, este tipo de ensino. Com vários nomes e objetivos este ensino tem sobrevivido ao longo do tempo como uma excrescência do ensino dito regular transportando sempre consigo o anátema de ser um ensino de segunda. Recentemente ao serem criados os CEF (Cursos de Educação - Formação), o legislador definiu, como população alvo para estes custos, "alunos com problemas disciplinares" ou com "repetidas retenções". O modelo agora apresentado, está repleto de omissões e contradições. Nenhum estudo foi feito pelo Ministério da Educação (que se saiba ou que produza efeitos visíveis), Não foi baseado em nenhum estudo prospetivo relativo à empregabilidade futura destes cursos profissionais, logo, quem os frequentar, com uma boa dose de sorte, arranjará emprego. Será que o objetivo é a exportação de técnicos como recomendado pelo governo? Não foram ouvidas, nem foi negociado com as associações patronais, quais os cursos e o tipo de formação necessários às empresas, de forma a garantir a empregabilidade e qualificar os quadros imprescindíveis ao relançamento da nossa economia. A oferta de cursos foi deixada ao critério das escolas, que não entendem, nem é suposto entenderem, nada de necessidades empresariais e de empregabilidade. É deste modo que se pretende criar uma alternativa credível ao ensino "regular"? Em vez de lançar um projeto experimental devidamente avaliado, generaliza-se logo a 50% do E. Secundário? Estes cursos profissionais serão essencialmente cursos de "papel e lápis", pois as escolas ou não estão equipadas, ou estão-no deficientemente, dado possuírem maquinaria completamente obsoleta para a lecionação de cursos de índole mais tecnológica, cursos esses que, a serem convenientemente ministrados, formariam os técnicos capazes de produzir bens transacionáveis, de que o país necessita se se quiser desenvolver. Os professores para essas disciplinas específicas, na sua maior parte, já se reformaram, estão velhos e gastos, ou então, são jovens sem um vínculo ao sistema. Em suma a oferta de 50% de ensino profissional no secundário é uma fraude, que capturará grande parte de recursos essenciais noutras áreas, não garantirá emprego e não resolverá o problema da necessidade de quadros qualificados para as empresas. Esta farsa sairá futuramente muito caro ao país. Nessa altura Passos Coelho e Nuno Crato, já estarão "noutra." Como se explica que, se Nuno Crato pretendia levar a cabo este modelo de formação profissional, tenha acabado com a disciplina curricular de Educação Tecnológica no 3º ciclo, a única disciplina que sensibilizava e familiarizava os alunos para o ensino técnico? 2 - No meu tempo as crianças, quando não queriam fazer qualquer coisa, eram ameaçadas com o "papão". Hoje quando Passos Coelho ou Victor Gaspar, por preverem o impacto e como não "os têm" para imporem mais medidas aos portugueses, encomendam o sermão à troica, que prontamente passa a impô-las a todos nós, cumprindo assim passo a passo a sua agenda ideológica pré e pós eleitoral. 3 - Passos Coelho depois de fazer a sua intervenção de cavaleiro do apocalipse ao país, foi espraiar a sua boa disposição para o concerto do Paulo de Carvalho e até cantou "Nini", ao que se sabe afinado, em contraste com o seu desempenho à frente do governo. 4 - Pela 1ª vez depois do 25 de abril, a direita radical está como quer: uma maioria, um governo e uma rainha de Inglaterra. Os resultados estão à vista.
Hélder Melim