No passado 5 de Julho comemorou-se o aniversário da Independência de Cabo Verde. Tive o privilégio de conviver na Ilha de Santo Antão durante uma semana com o comandante Honório Chantres na sua casa de família, o homem e político que foi companheiro de Amílcar Cabral, e hoje é um símbolo do Património político, social e cultural de Cabo Verde, onde nasceu a 25 de Outubro de 1941 no lugar de Guine, na freguesia da Ribeira Grande, ilha de Santo Antão.

O Comandante da luta armada da Independência de Cabo Verde, homem viajado e culto, entrou nas forças armadas portuguesas em 1962, como oficial miliciano do curso de Mafra, esteve em Angola no Luvo, fronteira de Angola com o Congo-Leopolville, depois Zaire e actual Congo kinshass, Republica Democrática do Congo.

Foi membro fundador do PAIGC, baseado na Guiné Conacri e vai para este país via Libéria. Esteve na luta armada até ao 25 de Abril ao lado de Amílcar Cabral, Aristides Pereira no sul e Luís Cabral a norte.

Em Setembro de 1973 dá-se a independência da Guiné, já depois do assassinato de Amílcar Cabral pelas tropas de Spínola e da PIDE portuguesa. Contudo, o plano político de Amílcar Cabral é realista pois preconizava, nas zonas libertadas, eleições para formar assembleias constituintes e proclamar a independência unilateral. O plano e o sonho de Amílcar Cabral é aplicado e concretizado. O tempo assim o demonstrou.

Entretanto, dá-se o 25 de Abril de 1974. As colónias têm novas dinâmicas políticas, reconhecendo e negociando com o PAIGC. Cabo Verde recebe os combatentes cabo-verdianos que estavam na Guiné semi-clandestinos e em Portugal e Holanda.

Ao seu lado esteve António Armando Fortes (irmão) durante 10 anos, mobilizando o movimento de libertação do povo cabo-verdiano para a independência. As células clandestinas actuam e a independência de Cabo Verde dá-se 5 de Julho de 1975, com o PAIGC.

Entre 1975 e 1980 dá-se o início da construção democrática destes países independentes, cada um com o seu Chefe de Estado, o seu Governo, a sua Assembleia, dirigidos pelo mesmo partido PAIGC. Neste período surgem divergências nas alas políticas de Guiné e Cabo Verde, questiona-se o projecto de Amílcar Cabral para libertar estes dois países. Contudo o projecto foi viável, Guiné e Cabo Verde independentes.

A 14 de Novembro de 1980 dá-se o golpe militar na Guiné-Bissau contra Luís Cabral (meio irmão de Amílcar Cabral) e culmina com Nino Vieira em primeiro-ministro. Em Cabo Verde, as cúpulas do comité executivo do PAIGC promovem o Congresso da ala Cabo-verdiana e decidem a criação, a 20 de Janeiro de 1981, do PAICV. Estão neste movimento Honório Cantre, Aristides Pereira, Pedro Pires, Abílio Duarte, Hofler Almada, entre outros notáveis.

Honório Chantre foi Ministro das Forças Armadas na Guiné até 1980 e ministro da Defesa Nacional, entre 1980-86 em Cabo Verde. Da sua vida rica, privou com Fidel Castro, Gorbatchev, Margaret Tatcher, George W. Bush e François Miterrand.

Hoje, na maturidade e tranquilidade da sua vida está a ler o livro “Ameaças do mundo moderno”. Foi um privilégio ter estado na ilha de Santo Antão, onde muitos madeirenses, desde meados do século passado, lá fizeram vida, quer na agricultura (plantação da cana sacarina), quer como mestres de pesca, deixando na onomástica alguns apelidos como Freitas, Abreu, Viúla, entre outros, e na toponímia como Ponta do Sol, Paul, Ribeira Grande.

* Excerto do livro “Símbolos da Independência de Cabo Verde” no prelo

Zita Cardoso