Nunca existiu no país uma actividade que, pela sua universalidade e popularidade, ocupasse um lugar tão central na sociabilidade, na transformação de significados e identidades sociais como o futebol. Esta paixão existe e é fomentada devido ao envolvimento emocional, à imprevisibilidade e à sensação de vitória que despoleta nos indivíduos. O desporto, apesar de ter o seu próprio andamento e cronologia, acompanha os grandes acontecimentos políticos, económicos e sociais da história. Em Portugal, isso foi sendo notório ao longo dos tempos e hoje, época conturbada, de crise e de austeridade esta tendência volta a fazer-se sentir. Não foi inocente, digo eu, o anúncio de mais e novas medidas de austeridade feitas pelo Primeiro-Ministro antes da selecção portuguesa de futebol entrar em campo. Mas que foi uma tentativa gorada, isso foi com certeza. Em tempos, o regime tinha no futebol uma arma de entretenimento, um local excepcional para homogeneizar as pessoas à volta dos chefes de Estado e de enaltecimento da obra. Hoje, julgo que ninguém, por mais que goste de futebol, ignora as más condições em que todos - pessoas, empresas, clubes e associações - vivemos. Além disso, e se recordarmos aquilo que aconteceu outrora, os espectáculos de futebol pautavam-se por ser locais onde multidões facilmente excitáveis, nervosas, capazes de mudar de opinião repentinamente, levadas pela euforia dos comportamentos colectivos se reuniam e encontravam. Por isso e por muito mais, não me parece ser boa ideia que repitam o mesmo erro.

Andreia Nascimento, Directora de Comunicação