O governo de Pedro Passos Coelho tentou ontem repor os bois à frente da carroça, anunciando medidas de redução da despesa como a extinção de 40 fundações e o corte em apoios a outras 14 entidades, o que daria para poupar qualquer coisa como 92 milhões de euros ao ano. Uma medida aguardada há muito, tanta é a obsessão em equilibrar o défice por via da austeridade e de novas medidas que têm como denominador comum o menor esforço do Estado para extorquir, de forma tão imediata quanto certa – num esquema de débito directo, de licitude muito duvidosa – o resultado líquido do trabalho dos portugueses, mesmo que isso represente um adiar ‘sine die’ do problema base das contas públicas.

O alcance está, obviamente, longe das reformas de fundo que o nosso pobre Portugal reclama há décadas. Algumas, foram mesmo anunciadas há pouco mais de um ano pelo ministro Miguel Macedo, no Parlamento. O que é feito, por exemplo, daquela ideia interessante de reduzir 15% dos gastos com a aquisição de bens e serviços que permitiriam poupar 1.500 milhões de euros? Ou o corte de 50% nos gastos com consultoria e estudos, o que representaria uma poupança quase equivalente à comparticipação anual do Estado às fundações: 95 milhões de euros? Um ano e 5 meses depois, nem se vislumbram os cortes, nem os tais estudos. Andamos às escuras a disparatar reformas para o ar, sem luz ao fundo, sem conhecer o fim e sem saber como e quando lá chegar.

Não venha, portanto, o ministro da Administração Interna personificar os portugueses recorrendo a fábulas ridículas como aquela de que “Portugal tem demasiadas cigarras e poucas formigas”, quando no Parlamento 50% dos deputados são daquelas formigas de asa longa que põem ovos durante toda a vida enquanto esvoaçam num território de conflito de interesses entre o sector público e o privado. Como pode haver formigas num governo cuja despensa está vazia todo o ano? Afinal quem são as cigarras que dão música e a que formigas é exigido trabalho suplementar? E para quem sobra o formigueiro no fim de contas? A política deve estar a passar uma crise de ideias. No método, copia receitas ultrapassadas que endeusam a austeridade ao ponto de sepultar a economia na cova onde jaz o défice. No discurso, plagia ‘slogans’ comerciais como aquele da ‘linha que separa’ a paciência da demagocia, rimando a austeridade de uns com a imbecilidade de outros. António José Seguro saiu-se com uma do género e Luís Campos Ferreira respondeu à letra. Inspirou-se no filme ‘À procura do Nemo’ e disse que os socialistas têm “memória de peixe de aquário”. A política está a um tal nível que, embarcando na mesma onda, quase diria que os peixes palhaço do aquário do deputado do PSD foram baptizados de com o nome de ‘Contribuinte’.

No mesmo dia que Passos Coelho sugeriu a extinção da fundação que dinamiza a Orquestra Clássica da Madeira, Alberto João Jardim fez questão de anular logo a decisão de acabar com uma das suas ‘noivas’. É bom lembrar que há vacas tão ou mais sagradas no enclave de Jardim que parece nem terem sido objecto de grande análise por parte do Governo da República. O primeiro-ministro não teve dúvidas em mandar encerrar a fundação que dinamiza um projecto cultural como a orquestra de música erudita, que custa 878 mil euros, mas nada disse quanto à Fundação Social Democrata que, em 2010, tinha um património de 12 milhões de euros, construído em meandros bem longe da transparência e do rigor que se lhe exigem. Continua “cego, surdo e mudo” o primeiro-ministro em relação ao criminoso funcionamento de um jornal público na Madeira. Há seis anos que o JM vem sendo usado como instrumento de propaganda, de retaliação e de branqueamento da verdade inconveniente, servindo para simplesmente fazer gincana política-partidária, escudando-se na matriz da Igreja, detentora de uma ínfima parte do capital social do título, para ser oferecido 20 mil exemplares nas ruas, mesmo tendo um preço de capa de 10 cêntimos. Um vexame sustentado pelo bolso dos contribuintes num montante de 4 milhões de euros ao ano. Em que lugar do mundo a despesa pública promove a concorrência desleal num quadro de austeridade? Onde mais o governo intervém para deturpar as regras do mercado, sequestrando a liberdade editorial de redacções de jornais, submetendo-as à sua vontade, afrontando a independência das empresas de comunicação social e condenando-as à insolvência? É nas mãos deste governo que o Governo da República entrega o futuro da RTP-Madeira?

A Região pode estar a contas com a troika e os madeirenses podem afogar-se na austeridade que Alberto João Jardim vai continua a viver a ficção de há 34 anos: a utopia da entronização do poder.E querem agora acabar com as fundações do dr. Jardim. Afinal, quem é o maior engenheiro financeiro das políticas de afundamento económico? Onde vive o obreiro da maior dívida pública regional per capita da Europa? São tantos buracos ocultos neste rochedo com menos de 800 km2 de área e outros que nem se conhece o fundo. Mais parece uma ilha de corsários sem rumo, viciados no jogo do poder, que se fazem passar por habitantes e que até choram lágrimas de crocodilo, fingindo-se comovidos com as manifestações populares em Lisboa ou em Madrid, tão aterrados de medo que estão devido ao efeito contágio de um eventual golpe de justiça popular, enquanto grassa a política da desresponsabilização e da impunidade. Quem vier a seguir que vá fechando os buracos e vá desenterrando os tesourinhos deprimentes da dívida que o jardinismo ocultou. Que os vá tapando com betão armado ou com euros. Que recupere a economia e a administração do afundanço das contas públicas. No fim, que pague os milhares de milhões de euros.