
Começaram por ser todos camaradas, uma forma de tratamento que quem foi à tropa compreende melhor e associa a todos os que passaram pelas mesmas dificuldades e estão ali, ao lado, para o que der e vier e a quem se pode confiar tudo, até a sobrevivência e de quem se espera lealdade e amizade. Depois, o dinheiro mudou tudo. Os camaradas passaram a ter vergonha de o ser e inventaram os ‘companheiros’ que a fúria neo-liberal de direita transformou em ‘amigos e amigas’. A camaradagem perdeu-se e com ela o sentido original de partidos que copiaram o que de pior há nos seus homólogos europeus e norte-americanos.
O caso mais grave é o do PPD/PSD que nasceu um partido social-democrata e evoluiu para a coisa estranha que hoje governa o País e a Região. Os camaradas perderam-se e com eles a vontade que impedia que se cometessem barbaridades como as que estamos a ver. Num partido com camaradas com coragem para criticar, ninguém ousaria o ataque brutal contra a social-democracia que está a ser levado a cabo, cá e lá.
Os assuntos internos de um partido são isso mesmo, internos. Dizem respeito aos militantes que pagam as quotas e a mais ninguém. É como nos clubes, só os sócios decidem o que se deve fazer, quem é o presidente e se os buracos nas contas são admissíveis. Os simples adeptos ficam a ver, porque são apenas isso, adeptos.
É assim que têm de ser vistas, por exemplo, as eleições internas do PSD-M. Quem vai escolher o futuro líder não são os madeirenses, são os militantes com cartão em dia. O que é muito diferente para o resultado final.
A eleição é um assunto interno, mas não é isso que impede que possa ser comentada e criticada. Por militantes, adeptos, adversários e mesmo por todos os que se estão a importar pouco com o resultado. E este processo está a pedir muitos comentários.
Desde logo, não se compreende a imaturidade de um partido, velho de quase 40 anos, que nunca se viu confrontado com uma eleição com dois candidatos e entra em paranóia completa. A ameaça de expulsão dos críticos, por exemplo, não tem qualquer espaço num partido democrático.
Num grande esforço de memória, só consigo encontrar algo parecido na Albânia, do tempo de Enver Hoxa, em que quem perdia uma eleição era, na melhor das hipóteses, expulso do partido. Muitos sofreram destinos mais duros só porque foram derrotados numa simples votação de braço no ar. Mas isso era na Albânia ou nos regimes estalinistas, em que os ‘camaradas’ não o eram.
Regularmente, sempre que convém, nos discursos e nas festas, repetem-se as referências à memória de Sá Carneiro, o fundador que não teve tempo para ser mais do que isso. Mas ninguém pergunta se ele, hoje, aceitaria inscrever-se neste partido.