Alexandra Freitas Vivemos numa sociedade demasiadamente pequena, ainda povoada de tantos preconceitos; espartilhada ainda em tantos medos; apaixonada - loucamente apaixonada - pela bilhardice, onde o boato e a inveja imperam, razões que constituem barreiras que às vezes impedem que avancemos com determinação e coragem. Sr. Director, lembra-se de que há anos celebrámos o fim da burocratização. A partir daí foi muito pior do que nunca: os papéis circulam de um departamento para outro e, por fim, ficam encalhados… São demasiados papéis e até para construir uma sanita em casa é um problema… Há uma coisa que me aflige: é que não somos exigentes connosco próprios e, por isso, desde o 25 de Abril todos os Governos - sem excepção - fizeram-nos náufragos num mar de palavras. Roubaram-nos o sonho e a criatividade. O único que alimentou e concretizou o seu sonho foi o José Sócrates: arruinou o país, negociou com a Troika e agora vive na mais luxuosa avenida de Paris a estudar filosofia. Ah, povo enganado! Chegada aqui, vou ao assunto que me traz a si: a questão das "feiras". Esta espécie de bicho-papão que parece assustar alguns comerciantes! Temem-nos porque vendem pratos e travessas de segunda mão; temem-nos porque vendem roupa de segunda mão; temem-nos porque vendem velharias; temem-nos porque têm artesanato; temem-nos até porque não vendem nada… É esta a tacanhez reinante: o melhor é nada fazer, daí a preguiça mental onde não poucos estão mergulhados. Se há barulho na zona velha, a solução que se afigura é fechar os bares e as tascas! E quando estes não existiam: havia discussões e pancadaria de meia-noite; os táxis, os carros, as motas circulavam até às quatro da manhã para comprarem o pão à Mariazinha. Aí estava tudo bem, até porque no Natal havia um bolinho de mel de oferta… Mas que raio de mentalidade é esta que qualquer coisa que se faça está tudo mal?! Nada serve! Entretanto, o Funchal à noite é uma cidade fantasma, da qual fogem funchalenses e turistas. O único lugar para onde vão é a cidade velha, porque ali há vida, há gente. Srs. Vereadores da CMF, passei na última sexta-feira na zona velha e vi, como eu, centenas e centenas de turistas viram, 12 artesãs e 1 artesão, todos a trabalharem. Era um regalo vê-los a executarem as suas peças e os turistas a fotografarem-nos e a filmarem-nos. Soube hoje que esta feira vai acabar. Fiquei espantada quando perguntei a razão. Uma pessoa disse-me "foi por causa disto e daquilo, que aquele disse ou aquele outro reclamou!". Se não é por causa disto ou daquilo, foi porque uns senhores fizeram umas fotografias, dizem que eram fiscais, e viram que estava um peruano e um cigano. Perguntei: "mas essa gente não é gente?!" Respondeu-me a mesma pessoa: "é gente mas foi por causa disto e daquilo!" Eu vivi largos anos na Inglaterra, onde há feiras aos montes, em pequenas cidades e onde, também, há comércio, o que não existe é "isto" e "aquilo". Hoje no mundo há feiras a dar com um pau, mas no Funchal não pode ser por causa "disto" e "daquilo", se não é por causa "daquilo", é por "isto"! É assim, Sr. Director, enterrada na sua solidão, moribunda na sua burocracia, "amancebada" com a sua bilhardice, a Madeira marcha, tudo por causa "disto" e "daquilo"…