Minha senhora, eu sei que quando precisou de impedir que a chuva lhe invadisse o quarto, aquele senhor mandou entregar-lhe umas telhas, até mais do que precisava; também me vai dizer que lhe ofereceram umas latinhas de tinta, e as paredes da sua casinha ficaram tão frescas e bonitas, tudo graças àquele senhor, que mandou entregar a tinta… para não falar da estradinha que lhe faz passar o autocarro à porta, já não precisa de andar carregada ladeira acima - quantas solas já poupou desde que aquele senhor mandou fazer a estradinha…? Pois é, minha senhora, há coisas que nunca se esquecem, mas isso já foi há tantos anos, e agora, como é que é? O temporal levou-lhe as telhas, o fumo dos incêndios estragou-lhe as paredes, os buracos da estrada nunca mais foram tapados, mas continuou sempre a "pôr a cruzinha" no quadradinho daquele senhor, não foi…? Eu sei, não foi ele que soprou o temporal, não foi ele que pegou fogo às serras, não foi ele que libertou a fúria das águas. Claro que não foi, aquele senhor só pensa que é Deus, mas apesar de omnipresente e quase omnisciente, não é de todo omnipotente… Mas já pensou se precisava mesmo daqueles dois túneis e daquelas três rotundas aí tão perto de casa? E desse edifício enorme que lhe roubou a vista do mar e é ao mesmo tempo casa do povo e centro de dia e centro de noite e pavilhão multi-usos e que está sempre às moscas e agora até parece que vai fechar de vez porque não há verbas…? Mas pior que isso, minha senhora, é o seu marido estar desempregado e ninguém lhe dar uma oportunidade, triste mesmo é que a sua pensão já não chega sequer para comprar os remédios, e o que parte mesmo o coração é a distância que a separa dos dois filhos que emigraram, forçados a procurar melhor sorte longe duma terra que lhes virou as costas e lhes negou um futuro. E este pobre rapaz que cá ficou, porque sempre foi muito cosido consigo e não tem coragem de partir, deixando a mulher e os pequenos a depender de si, o que vai ser dele? Já não lhe disse tanta vez que fosse falar com os amigos daquele senhor, afinal de contas toda a família tem o cartãozinho, sempre foram votar como aquele senhor mandou, nunca faltaram a uma festa na herdade - quer dizer, só este ano, mas foi por causa da crise - e até uma vez o seu marido quase ia dando uma malha no primo José, esse maluco, quando ele começou a dizer mal daquele senhor, não foi? Então nada disso conta agora? Eu sei, eu sei, tudo isto lhe faz uma grande confusão, agora toda a gente diz mal daquele senhor, até alguns que sempre foram amigos dele, e não são malucos como o primo José. Além disso, toda a gente fala da austeridade, do PIB, da receita e da despesa, do raio da Troika, da TSU que desce, da TSU que sobe, e a culpa é do Sócrates que fugiu para Paris, mas também é do Cavaco que afinal é pobrezinho, do Passos que é mau como as cobras, daquele Gaspar que fala devagarinho mas mesmo assim não se percebe nada… Só aquele senhor é que não tem culpa nenhuma, os verdadeiros culpados são os bandidos da oposição (que nunca governaram!), os palhaços da comunicação social (menos os daquele jornal que é de borla mas é caríssimo), os malditos ingleses que afinal são madeirenses velhos, enfim, uma baralhada. Minha senhora, ainda não se convenceu que se calhar aquele senhor é que está a mais, que já devia estar a descansar e a passear os netinhos, até o senhor padre há dias disse que as pessoas devem pensar bem quando escolhem quem vai governar... Quem diria, até o senhor padre deixou de gostar daquele senhor! Pois é, minha senhora, demorou mas chegou a hora. É preciso mudar a cruzinha, a ver se a vida melhora…
Raul Ribeiro