A imprensa ocidental julga poder provocar e desafiar impunemente os tabus morais e religiosos do Islão em nome da sacrossanta liberdade de imprensa e de opinião. Na verdade a história das religiões é também uma história de intolerâncias originadas na convicção de que existe uma dada verdade que não é questionável. A Europa viveu séculos de intolerância religiosa contra judeus e muçulmanos e entre os próprios cristãos. As ditas verdades absolutas mesmo de carácter religioso servem sobretudo para perpetuar no tempo sistemas de poder que de um forma ou de outra privilegiam alguns em detrimento de uma maioria. A liberdade religiosa, de que goza o Ocidente no quadro das democracias modernas, só foi possível porque houve todo um movimento filosófico que permitiu a autonomia do pensamento secular em relação à teologia e ao pensamento religioso em geral. De modo particular a filosofia capaz de conceber sociedades e a sua organização assente em princípios éticos e no direito, associada ao desenvolvimento do conhecimento científico, livrou-nos da intolerância religiosa. Se a imprensa e o mundo ocidental pretendem questionar o islamismo têm que procurar formas de fomentar a reflexão sobre estes assuntos e hoje através de net isso é muito fácil porque muitos cidadãos muçulmanos têm acesso à net. A primavera árabe tornou-se possível em boa parte devido às novas tecnologias de informação. Mas mais importante seria que o Ocidente se empenhasse no desenvolvimento económico e social dos países muçulmanos através de programas de cooperação e não se preocupasse apenas em retirar o maior proveito económico desses países através da exploração de matérias primas. A União Europeia deveria fazer do mundo árabe, nomeadamente do Norte de África, uma das suas grandes prioridades tendo em vista o desenvolvimento dessas regiões a bem de todos. Os responsáveis de órgãos de comunicação social que vêm com discursos de "virgens ofendidas", que não compreendem a revolta muçulmana, com o argumento do direito à liberdade de expressão, demonstram que o fazem com o único objectivo de provocar ou de demonstrar a sua própria intolerância para com os muçulmanos. Se sabem que a figura de Maomé é sagrada e que o contexto das suas culturas não lhes permite compreender por que razão se há-de ridicularizar o profeta, qual o motivo por que o fazem? Os franceses exigem que os estrangeiros saibam viver e integrar-se na sociedade francesa respeitando as suas leis mas não percebem que devem o mesmo respeito pela cultura daqueles que eles próprios aceitam no seu país. Se é verdade que os muçulmanos precisam de aprender a viver com a diferença não é menos verdade que os ocidentais têm que fazer a mesma aprendizagem em relação ao Islão. Há qualquer coisa de gratuito nestas provocações que não é, em minha opinião, aceitável. Seria bom que estes arautos da liberdade de expressão se lembrassem que os muçulmanos cujo horizonte de vida não é a destruição de ninguém, que são boas pessoas e bons cidadãos e que querem apenas serem felizes e dar o melhor aos seus filhos, são com certeza muitos milhões e não merecem serem alvo de gozo e maledicência só porque não os entendemos ou a nossa visão do mundo é outra. Provavelmente, como se costuma dizer, como seres humanos como somos, é mais o que nos une que aquilo que nos separa.

Paulo Santos